...palavras são o que teimamos em usar para vesti-las.

sexta-feira, 22 de maio de 2020


Dois anos de vendaval

 Hoje notei que faz um ano que não escrevo um texto aqui. Eis a razão.

Imagine um vento que vem assim do lado, pelo cantinho da janela, na forma de uma brisa quente e gostosa. Quando a gente se dá conta, a brisa virou um vendaval daqueles que balança tudo, derruba quadro da parede, retrato da estante, faz a porta bater e te deixa tonto sem saber direito de onde está vindo e para onde vai. Ganhei um presente assim, na forma de vento, ha exatos dois anos, data que comemoramos hoje com tanta alegria aqui em casa.

Agatha, você  é o ar que refresca o meu peito, varre velhos conceitos dos cantos do meu coracao e  sacode as nossas vidas todos os dias, num misto de doçura, fibra e esperteza que me desafia e consterna. Com você me dei conta do estágio ainda incipiente em que me encontro, na escala de evolução como ser humano. Ainda preciso crescer muito para conseguir te entender e ser a mãe que você precisa. Você não se cansa. Desde que aprendeu a ficar em pé sobre as suas perninhas gordas, você já escalou algumas pias de banheiro, a mesa de jantar par abalançar o lustre de garrafas, a mesa da cozinha para dançar em cima do tampo, a escrivaninha da sua irmã par apegar canetinhas na estante e o piano para tocar com os seus pezinhos.

Você lembra de coisas que falamos faz tempo, de pessoas que encontramos há meses, de músicas que cantamos so uma vez. Faz uma pergunta bem esdrúxula e depois responde “ah tá”, satisfazendo-se imediatamente, quando a gente tenta responder. Acorda perguntando se já está “todo dia” e pergunta se "já está de noite" assim que o começa a cair a tarde. Você me dá, inesperadamente,  abraços tão apertados que enchem o meu peito de uma alegria que eu não sabia existir, para depois arremessar meu óculos longe com raiva na hora da birra. Minutos depois, quando me vê sorrindo por algum motivo, pergunta se eu já estou feliz, querendo saber se já esqueci do ocorrido. Puxa o pelo do cachorro, sai correndo com o braço para cima levando o ossinho dele para longe, depois poe a sua cabecinha junto com a dele e diz “te amo Tobias”.  Voce sabe quando fala coisas engraçadas. Ri com os olhos, esperando para ver o que a gente entendeu. Pula batendo palminhas quando eu falo que vai ter bolo de chocolate, como hoje, e na hora que ganha o seu pedaço, só quer catar o granulado, um por um com os dedinhos, por horas a fio se eu deixar. Voce vira bicho quando eu tiro o celular que o seu pai deu na sua mão, para você ver desenho e deixar ele trabalhar em paz. Voce gosta de passar o meu batom, não apenas na boca ou no rosto, mas especialmente nos braços, de maneira metódica que não se acha um pontinho com cor de Agatha neles. Só cor de curupira. Voce sonha muito de noite, grita e briga dormindo, acordando todo mundo de madrugada. Voce adora cosquinha, e ri tanto que solta pum e pergunta olhando de lado, com o dedinho apontando para o ouvido: “Tutou?”.

Quando você me deixa maluca – quase todo dia, em especial nesta quarentena que estamos vivendo -, basta lembrar do quanto eu quis que você viesse logo para casa há dois anos. Trazer você para perto de nós e poder te proteger foi uma das maiores alegrias e alívios que já experimentei. Tudo isso já seria maravilhoso, mesmo com toda a turbulência do seu ventinho, mas ainda tem mais. Você fez da Giovanna uma grande irmã. Ela briga com você o dia inteiro na nossa frente. Quer o mesmo copo. O mesmo número de bolachas. Sentar no mesmo lugar. Fala que você é chata e só chora.  Que você baba nos brinquedos dela, e os arranca imediatamente da sua mão. Mas quando não estamos olhando, e preciso confessar que já espionei e constatei com meus olhos algumas vezes, ela te protege como uma leoazinha. Te ensina o que ela sabe, fala mansinho,  te faz carinho, canta para você, e sorri com aqueles dentões enormes dela que a gente ama tanto ver expostos por aí.  

Pode continuar ventando, minha bebezinha. Você soprou e fortaleceu a brasa do meu desejo de ser mãe, e tem me dado a chance preciosa de ver um novo ciclo de vida se desenrolando diante dos meus olhos: o seu. Me dá uns minutinhos para respirar de vez em quando, se puder, mas segue soprando o seu ar de vida intensa sobre nós!

quarta-feira, 22 de maio de 2019


Um ano a quatro

Tatinha, hoje é um dia muito especial. Há exatamente um ano, respirei aliviada quando finalmente entramos pela porta da sala carregando o seu bebê conforto e colocamos ele cuidadosamente no chão. Pronto. Meus ombros, tensos há dias, desceram amolecidos.  Você estava em casa e era nossa para sempre. Posso contar este tempo tradicionalmente em meses, semanas e dias, ou nas vezes (muitas) em que meu coração ficou mais leve, cada vez que você abriu o seu sorriso delicioso. Sorriso que foi ganhando cada vez mais destes seus mini Mentex branquinhos, que hoje compõe o seu sorriso de criança, não mais aquele sorriso banguelinha de bebê.

Seu rostinho era redondo como uma lua, e sua cabeça ficava quase toda a mostra, com uns cabelinhos claros e ainda ralinhos e bagunçados. Agora eles já se aventuram em cachinhos, mais cheinhos e encorpados, sempre cheirosos, mas que ainda teimam em fazer bagunça para combinar com você.

Vimos você aprender a segurar a colher, jogar as coisas brava no chão, engatinhar, andar e agora correr e escalar. Vimos você despertar na Gigi o verdadeiro amor de  irmã. Aquele que oscila entre o amor (nos muitos momentos de carinho e chamego) e o ódio (sempre que você baba na boneca ou na borracha dela), mas que faz ela te defender de tudo e exibir você por aí como um troféu. E você aprendeu rapidinho a acompanhar essa sua irmã tão especial por onde ela vai, a rir com vontade de tudo o que ela faz, e imitar tudo o que já consegue, escolhendo assim desde logo os lugares mais altos e perigosos da casa para as suas escaladas.

O tempo que passo longe de você e da sua irmã hoje em dia tem dois efeitos opostos. Por um lado, descansa meu corpo e ouvidos (o som de vocês é ininterrupto, a correria é constante e a bagunça perene,  o que por sua vez também faz com que eu mesma dê vários gritos dos quais me arrependo sempre). Mas ao mesmo tempo, o tempo longe de vocês cansa a minha alma, que se desconecta em parte de mim, e só resolve voltar quando nos encontramos. Ela fica amuada, entediada, e vê pouco sentido no que ando fazendo por aí. É como se fizesse birra, igual a certas pessoas... Se joga no chão, bate os bracinhos no ar e faz um bico enorme. Acho que ela se dá conta que enquanto vocês estão em casa crescendo diversos milímetros por  hora (pelo menos essa é a impressão que dá!), eu corro de lá para cá ocupada com tarefas e reuniões que no final se mostram muito menos importantes do que o seu convite, Tatá - com a mãozinha minúscula batendo no assento do sofá -  para eu sentar do seu lado e ver você riscar o papel. Aliás, como é que pode já segurar o lápis tão direitinho?

Este foi o primeiro ano de uma família que agora está completa, com a sua chegada. Você, Tatá, é para mim o símbolo da esperança (considerando não apenas o tanto que foi esperada, mas que a beleza e a vida podem surgir de onde nunca se espera... e de onde não mais se espera).  Todos os dias, quando te coloco no berço, repito que a mamãe te ama, o papai te ama, a Gigi te ama e o Tobias quase sempre te ama (talvez ele também amasse o tempo todo se você não roubasse o osso dele para por na sua boca). Repito isso aqui, Tatá, agora por escrito, para que nos muitos anos que virão, assim permita Deus, você nunca se esqueça de todo esse amor que  foi capaz de criar.  
 
 

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Tatatá




Agatha, não tem como eu deixar o dia de hoje acabar sem pendurar nesta tela em branco do computador as palavras que andam rodando na minha cabeça há algumas semanas, soltas, querendo ser registradas para o dia em que você puder entender. Foram sete meses de convívio absolutamente intenso com você. Muitas vezes cercadas pela nossa família, que te ama tão loucamente quanto eu, mas também tantas vezes só nós duas. Aqui na nossa casa, na rotininha que o seu status de bebê requer, entre banhos, mamadeiras e passeios no sol, nesta pausa maravilhosa que a vida me concedeu para te conhecer e receber os presentes que você me trouxe, não sem bem de onde, com a calma e o tempo que eles merecem.


Lembrar como é sentir o amor puro de verdade, com total intensidade e sem receio de entrega, foi o milagre que você fez em mim. Atendi ao convite dos seus olhos enormes, para um contato intenso e profundo, que diariamente foi me trazendo de volta, me resgatando e resgatando minha esperança de me encantar novamente com o mundo, uma parte da inocência que eu tinha largado por aí nas curvas pelas quais a vida às vezes nos leva.   

Vi seu sorriso imenso e gostoso, aquele mesmo que você nos ofereceu de graça logo no primeiro dia em que nos conhecemos, ainda banguela, ir ganhando o recheio de dentinhos, desde o primeiro até o nono, que despontou aí outro dia, não te deixando dormir à noite de febre e incômodo. Vi você começar a engatinhar como uma lagartinha em cima da cama, depois rápida com os joelhos coordenados no chão, e logo estava se apoiando para ver de pé o que tinha em cima do banco. Torcemos pelo seu primeiro passinho com mãos dadas, depois sozinha, e agora te vejo passar correndo de lá para cá no corredor, ainda meio cambaleante, mas determinada, enquanto guardo na cozinha tudo o que você tirou das gavetas enquanto eu cozinhava.

Vi você fazer caretinha com a boca toda suja de feijão preto, fazer bagunça na banheira, puxar, impune, tufos de pêlos do cachorro. Aprender a gostar de dormir no seu berço, que no início parecia ter espinhos, e onde agora você deita tranquila, enfiando a cabecinha nas almofadas, depois de balançar o bumbum e abraçar o seu coelho Godofredo. Vi você se arriscar nas suas primeiras pseudo-palavras, que por enquanto se resumem a três: “papapo” (termo multi-propósito que serve tanto para “sapato”, “sapo” quanto para “macaco”), “pu-pu” (vulgo “piu-piu”, mas que além de aves abarca tudo o que vôa, incluindo borboletas, mosquitos e pipas), e “não” (este último termo de uso intensivo, dispensando explicações).  Vi você conquistar a sua irmã logo no primeiro olhar, irritá-la com a sua baba nos brinquedos e seu choro nervoso, e logo depois voltar a fazê-la te amar com o seu abraço aconchegante, sempre acompanhado de uns tapinhas nas costas, das suas mãos gorduchas.

Virei nestes tempos uma pessoa ainda mais aficionada por fotografar, filmar e gravar tudo o que você e a sua irmã fazem, falam, vestem. É uma chatice mesmo, uma fixação paranoica. Parece que se eu não fotografar, o momento não aconteceu. Certamente um desvio grave, vindo do meu subconsciente que quer vencer o decurso do tempo, aprisionando estes momentos simples para sempre, ainda que seja na memória do celular, no hardware do laptop, na página do photo-book que eu insisto em mandar imprimir. Desse jeito, a minha licença maternidade não acaba. Vocês não crescem. Sua risadinha continua assim inocente e abundante para sempre. E seus olhos continuam querendo para sempre buscar a minha alma, lá dentro de mim.



Amanhã não vai ter jeito, Ágatha. Vou voltar para o trabalho para valer, e te ver pouquinhas horas do dia, ao invés de o dia todo, como eu e você estamos acostumadas. Já te expliquei lá no seu bercinho, agora há pouco, e você, de novo me deu um presente, ao ouvir tudo me olhando e no fim dizer “tá”. Claro que pode ter sido uma sílaba solta dessas que você cantarola comigo no banheiro sem parar. Qualquer um diria isto. Mas eu creio que foi você me confortando e me lembrando que TÁ tudo bem. TÁ tudo ótimo. Você TÁ aqui. Você é a TATATÁ (AgaTHÁ), como brincamos e você repete. E TÁ mesmo, TATATÁ. Entre os presentes que você me trouxe, está o desejo antigo, agora amadurecido e transformado em objetivo, determinação, de encontrar um caminho onde eu possa andar mais pertinho de você e da sua irmã, e também mais perto de mim mesma. Vamos conseguir, TATATÁ. Pode dormir tranquila.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O tímpano e o tempo

Foi de uma hora para outra mesmo. Assim como quem relata um mal súbito, uma vista ofuscada, ou uma pontada fatal no peito. Num minuto ouvia tudo perfeitamente: todos os barulhos daquela casa, altos e encavalados, como todo dia. No minuto seguinte, começou a ouvir o latido do cachorro estranhamente distante. Como se ele estivesse a muitos e muitos metros de distância, e não ali no quarto ao lado, brincando de puxar a pelúcia da mão da Carolina. 
Carolina, que apesar de ter só seis anos de assunto, falava mais que torneira aberta, uma palavra emendada na outra, sempre em volume além do necessário e às vezes sem parar para respirar, até lhe dar um engasgo. A irmã chorava aquele choro estridente de nenê com fome namadrugada, mas também de dia, fosse porque queria segurar a colher na hora de comer, ou porque caiu achupeta, qualquer coisa assim. E em cima da voz de uma e do choro irritante da outra, tinha também o latido do ChicoDe uns tempos para cá tinha dado para enfiar o focinho em baixo da fresta da porta ao menor movimento do elevador e latir que nem vira-lata de periferia no quintal. 
O que deu nesse bicho agora?  Já não basta essa gritaria em casa? dizia Maurílio, algumas vezes a ponto de pegar a chave do carro e fugir do caos sonoro em que tinha se tornado aquela casa
Quando eram só ele e Tereza, tomavam café expresso em silêncio de manhã, liam o jornal, e tinham o costume de ouvir jazz bem baixinho enquanto tomavam um vinho à tardinha, ao chegarem do trabalho. Dava para bater papo com tranquilidade, sem qualquer interrupção, e até ouvir um passarinho ali da árvore do jardim do prédio, já que a copa dava quase na janela do quarto. Que saudades tinha do tempo em que não precisavam de babá ou empregada:
– Por que a Marlene precisa falar tão alto, meu Deus? – reclamava para Tereza, que a tinha contratado. 
Antes das crianças, tudo se arranjava com mais facilidadeem casa. Não havia obrigação de almoço ou jantar. Uma torradaum patêestava tudo certo. A roupa era tão pouca que se podia levar na lavanderia às sextas-feiras. Agora, eram quilos de roupas na máquina e panela de pressão chiando alto logo cedo. 
As meninas precisam comer direito – dizia Tereza. 
A Tereza mesmo, que cantava bossa-nova baixinho ao violão nas noites tranquilas de alguns anos atrás, agora gritava como é de direito das mães gritar. Não por opção, mas por necessidade. É uma que não quer calçar o tênis, a outra que não para quieta para trocar a fralda, o mijo do cachorro fora do lugar e a porcaria da campainha que já tocou três vezes e ninguém que tem coragem de atender, que é tudo ela que tem que fazer sozinha nesta casa mesmo. 
E Maurílio foi perdendo a vontade de voltar para casa, que jazz não ia ter, e ele sabia. No começo perguntava se não faltava nada na dispensa, que ele podia parar um instante na padaria ou no mercado e assim se demorar mais um pouco na rua. Depois, quando até no telefone tinha ficado difícil conversar por causa do barulho das crianças, mandava uma mensagem avisando que precisava trabalhar até mais tarde. E mesmo que não tivesse trabalho, arranjava um assunto para tratar com um amigo, que melhor seria falado com uma cervejinha. E assim ia se livrando daqueles decibéis insuportáveis, tratando de dar um jeito de chegar em casa quando as crianças já dormiam, a empregada já estava no ônibus de volta para casa, falando alto com outra pessoa. Quem não mais gritava, nem mesmo falavaa essa hora, era Tereza. Não porque não tivesse assunto, que muita coisa tinha acontecido em casa durante o dia, mas porque já lhe faltava energia e às vezes mesmo vontade, já que sabia queMaurílio não tinha tanto trabalho assim na loja
Já no final de semana, não tinha para onde fugir. A barulheira estava lá desde cedo, até a noite. Não se podia mais dormir até mais tarde, que logo às seis alguém chorava, a TV era ligada bem alta no canal de desenhos, e o cachorro queria brincar. Depois do almoço eram as crianças vizinhas correndo em casa, ou um buffet infantil com barulho ensurdecedor de música ruim que não deixa ninguém conversar
Mas tudo isso, incluindo a falação da Carolina pedindo mais biscoito, o choro agudo da nenê apontando para a chupeta no chão, o latido esquizofrênico do Chico, a briga da Marlene no interfone com o porteiro, o chiado do feijãoe a Tereza pedindo socorro... tudo isso agora tinha ficadodistante, num volume estranhamente baixo, quase inaudívelque trazia consigo, ainda, um eco nostálgico de passado, uma coisa de dar medo, como um som seco num grande salão vazioEco de filme que tem cenas de passadosabe, de um tempo que já não volta mais.
- Meu Deus,  ficando surdo. Corre aqui, Tereza, me traz um cotonete urgente
Mas não houve cotonete, antibiótico auricular, otorrino ou aparelho auditivo que resolvesse.  Tudo dali para a frente,passou a ser um som baixo e distante do passado, com aquele eco de lonjura e nostalgia. Olhos no presente e ouvidos eternamente no futuro. Um tipo de benção-maldição que lhe lembrava diariamente que o tempo passa, crianças crescem, cachorros morrem, e as mulheres eventualmente se cansam. Só agora conseguia escutar de verdade a risadinha histérica da Carol, as primeiras palavras da nenê, e a voz suave de Tereza dizendo que lhe amava. Mas tudo isso foi há muito tempo atrás.




Brilho humilde


Que gentileza sem tamanho, a desse luar. Se condói todo com as luzes aqui de baixo. Especialmente com essas ridiculazinhas, as de natal, que andam por aí esses dias. Ou melhor, que piscam por aí essas noites. Medidas em watts, coitadas, dependentes de fios e da vontade humana, vivem vidas curtinhas, sem graça e de pouco sentido. Ninguém por elas suspira ou uiva. Nem sequer um verso a seu respeito. Logo queimam ou quebram. Saem de moda. Enfiadas num depósito, ficam apagadas até ano que vem ou descartadas, para nunca mais. 

De tão esclarecida e iluminada, há tanto tempo ali observando o mundo de longe e ouvindo elogios a seu respeito, tem a grandeza de disfarçar o seu brilho, seja quarto crescente, ou cheio. Só tem sossego mesmo quando mingua até sumir. Aí pode relaxar despreocupada, sem risco de magoar ninguém.

Mesmo emprestada, já que própria não é, a luz da lua não se presta a comparação com a miséria dos bulbinhos e leds aqui de baixo, por  numerosos e modernos que sejam. Se esconde então ela, elegante e discreta, aqui e ali entre as nuvens que o vento empresta, como a mulher que puxa tímida a toalha para se cobrir quando sai do banho  e percebe que tem visita em casa. Afinal, quem é dona de poder de sedução dessa monta, não precisa ficar por aí se mostrando à toa, exibindo brilho e humilhando lampadinhas, faiscas e vagalumes a troco de nada. Ela deixa para brilhar sozinha, com força e vontade, em outros cantos. Em alto mar, no sítio ou no mato, onde essas pobres luzinhas  não estão, ou se estão quase não se vê. 

Mas às vezes, mesmo com toda a sua clareza de discernimento, não enxerga saída.  Tem que contrariar a sua alma generosa e brilhar como um grito,  escandaloso e despudorado, mesmo aqui na cidade, na presença de milhões de luzinhas infelizes que a observam com dor e inveja. Não porque tenha perdido a bondade, o juizo ou a compostura. Mas porque às vezes simplesmente não se encontra toalha suficiente que lhe cubra.


terça-feira, 16 de outubro de 2018

Sobre o Tobias



O Tobias veio para acalentar um coração infantil aflito que, de tanto desejo de ter um animalzinho, acolheu duas minhocas no jardim e as batizou (Juliane e Mariane eram os nomes). A efêmera vida e trágica morte dos anelídeos em seu pequeno copinho plástico teve o heroico feito de nos convencer a ir em busca do companheirinho que a Giovanna tanto pedia. Um cachorro.

Já li em algum lugar que um cachorro nada mais é do que amor embrulhado em pelos. No caso do Tobias, muitos, branquíssimos e longuíssimos, quase sempre bagunçados, descabelados, e inevitavelmente embolados, dando a ele o ar de cão selvagem que na verdade é. Isso porque além do amor que ele de fato traz de sobra em seu interior, tem uma dose enorme de malandragem lá dentro, um tipo de combustível atômico que faz o bicho saltar que nem coelho e correr como se fosse um labrador, com aquelas orelhas cabeludas balançando sem parar e deitadas para trás para melhor aerodinâmica. Corre não apenas atrás de bolinhas e discos, mas também de pombas, borboletas e afins. O Tobias não perdoa. Se mexeu ele persegue. Não pega nada, mas se diverte. Só ele para acabar com a a atmosfera zen do laguinho de carpas aqui do Condomínio, avançando nelas da borda que nem um doido, abanando seu penacho branco com a mais plena alegria. Por duas vezes já precisei puxá-lo pela coleira lá de dentro, ao ver aquele algodão gigante, boiando na água gelada.

Tem também as outras artes de cachorro normal: sobe na mesa e come o nosso jantar quando ninguém está vendo, rouba pé de meia ou de sapato quando a gente está atrasado, late ferozmente para o seu reflexo no vidro da sacada, esconde o caroço melado de manga no sofá branco da sala, bebe água do chuveiro. Já vomitou no carro e acertou dentro da minha bolsa que repousava aberta no chão. Já avançou em Pitbull (o doido!). Já entendeu sozinho que a nossa bebê é café com leite e com ela ele só brinca de levinho.

O Tobias é responsável por grande parte do barulho, mas também da leveza da nossa casa. Ver ele esfregando freneticamente as costinhas justamente onde espirrei o spray para  espantar cachorro é um episódio que gera tanta indignação quanto riso.  Brinca de pega-pega e esconde-esconde pra valer com a Giovanna, traz os brinquedos para a gente tentar puxar da boca dele (e não larga nunca), faz festa dobrada quando escuta a voz da vovó chegando.

O Tobias está sempre perto. Não importa o que você esteja fazendo ou a hora. Companheiro até da madrugada, sem se importar com o enervante choro de bebê que às vezes nem o nosso ouvido humano aguenta. Lá está ele aos pés, na cadeira de balanço, por horas a fio, até todo mundo poder voltar a dormir. E quando a gente esquece a carteira em casa e volta correndo para pegar, lá está ele ainda de olhar fixo e sempre esperançoso na porta, pronto para fazer a mesma festa que faria se estivéssemos voltando de uma viagem de um mês. O Tobias me fez falar fininho, amorosamente e me referindo a mim mesma como mamãe dele. Nunca imaginei isso.

O Tobias já tinha nome antes mesmo de existir. Era o nome idealizado de um cachorro, se um dia o tivesse.  já houve até Tobias Agora aqui está o Tobias em carne, osso e muitos pêlos, com todo o seu amor e malandragem, dormindo à noite em cima dos pés da Giovanna, que tanto o desejou. E por tabela fazendo de cada um de nós uma pessoa um pouquinho mais tolerante, amorosa e talvez mais leve. Agora são quase quatro horas, está para chegar o rapaz do adestramento, que chamei para me ajudar com esse negócio de um Maltês achar que pode atacar Pitbull. Ah, Tobias...


terça-feira, 18 de setembro de 2018

Eu, o Lucas e as nossas dores



Se a espera pela Giovanna, nossa primeira filha, foi uma gravidez de desconforto  infindável (pela longa demora de  quase 5 anos na fila da adocão), foi o momento da chegada da Agatha – e não a espera por ela - uma das dores mais agudas que já senti. Um parto de contrações ininterruptas que durou mais de uma semana.

Conhecer sua pequena filha, tão esperada, e não poder trazê-la para casa imediatamente, é uma prova de nervos. É parecido com o drama das mães que deixam bebes na UTI do hostpital, quando nascem prematuros. Voltam para um quarto de bebê vazio, ainda sem  ocheiro ou o barulho que todo quarto de bebê merece ter.

Passar o dia todo trocando calor e olhares com aquele nosso pequeno sonho que se concretizou, e à tardinha dizer tchau. Colocar a criança que já amei nos primeiros instantes, de volta nos braços de alguém que faz o melhor que pode, com poucos recursos e tendo mais dezenas de crianças e adolescentes para cuidar.

Como doía o meu coração cada vez que eu estendia os braços neste movimento ingrato, de entregar minha filha para vê-la novamente só no dia seguinte, no horário permitido de visita. Algumas vezes a entrega teve que ser a uma ou outra adolescente, também abrigada no local, pela falta de braços da equipe de cuidadores no momento da troca de  turno. Eu me oferecia para ficar pelo menos mais um pouco, niná-la e coloca-la no berço eu mesma. Mas não era possível acomodar a rotina que eu idealizava para a minha bebê, em meio a criançada maior que precisava ainda jantar, tomar banho e os adolescentes que tinham seu momento de conversar alto, assistir TV e ouvir musica (funk) em volume perturbador, no porão escuro e de chão frio, onde ficavam todos juntos até mais tarde, na hora de subir para os quartos e dormir.

Ia embora com o coração oscilando entre a tristeza profunda da impotência, e a alegria aguda por saber que aquele desejo já tinha nome e rosto, só não estava em casa ainda.

Durante as noites, que acredito tenham sido as mais frias do inverno deste ano, não parava de ouvir na minha cabeça aquele chiado pertubador do peito dela, que por óbvio precisava de um tratamento mais efetivo do que a inalação apenas com soro que vinham fazendo, ainda que diligentemente por lá.  E a aflição so aumentava quando a Giovanna me perguntava inconformada, com uma expressão inquisitória:

_ Mae, como você pode deixar a minha irmã lá?

Foi mesmo um parto dolorido. Mas tendo a crer que havia um motivo para esta demora. A dor do outro, personificada no Lucas.

Aquele menino especial de 16 anos, que esteve ali desde bebê, abandonado por conta da sua deficiência. Durante todas as minhas longas visitas à Agatha nesta semana, o olhar perdido dele se fixava por alguns instantes nela, e ele vinha, com seu andar cambaleante e seu descontrole motor, beijar a bebê que amava. Quantas Agathas, bebês saudáveis, bonitos e perfeitos, ele viu chegar ali, e sair nos braços amorosos de pais que ele não teve e nunca terá. E minha dor incluía, devo confessar com vergonha, o sentimento de receio pela integridade física da Agatha, que este rapaz insistia em pegar no colo, apesar de não ter condições motoras para isto.

Na noite de quarta-feira em que finalmente foi emitido o termo de guarda pelo fórum, fomos eufóricos, em família, buscar a nossa bebê lá. Ao tocar a campanhia, pela primeira vez eu notei que da rua era possível ver uma janela, a janela do quarto dos meninos grandes. A luz estava apagada, mas pude reconhecer perfeitamente a silhueta do Lucas, que olhava fixamente na direção do portão, onde estávamos. Imóvel, sem os movimentos oscilantes e involuntários que costumava fazer. Ele acenou para mim. Parecia mesmo saber que era a última visita, e que não veria mais esta sua bebê. Ao menos não até a chegada da próxima na casa.

A minha grande dor havia finalmente terminado naquela noite. Mas a do Lucas não.  




   

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Boa noite para o 3... bom dia para o 4!


Há tempos tenho tido vontade de escrever, mas tem sempre alguma coisa mais concreta, mais urgente, mais real, que tem que ser feita na mesma hora. Mas hoje não. Hoje nada é mais importante do registrar para sempre o que estou sentindo, logo após colocar para dormir pela última vez a minha filha de 3 anos. Amanhã, daqui poucas horas, você terá 4. Acho que toda mãe é sensível com esta história dos filhos crescendo, da data do aniversário. Mas eu acho que eu sou mais. Demais.
Talvez porque eu não estava lá no dia em que você nasceu. Não estava. Não fui eu que senti dor, não tenho história de correria para o hospital para contar, não te vi enrolada em um pano azul. Não vi. Também não dei seu primeiro banho, e não sei como foi te segurar quando você era tão levinha que parecia que ia quebrar.

Não ter estado com você desde este momento, me dá a impressão de que já perdi tempo demais. De que preciso me agarrar com verdadeira gana ao tempo, ouvir com atenção  cada musiquinha que você canta, fotografar, ainda que na mente,  cada carinha engraçada que você faz, e desfrutar de  cada um destes seus sorrisos matadores. Sorrisos de cujos poderes mágicos estou convencida. Ao menos, poderes que nunca ninguém exerceu sobre mim.


Pode parecer uma reflexão triste até aqui. De fato estou chorando enquanto escrevo e várias letras do teclado já foram aleatoriamente contempladas com um pingo. Mas é um choro de contemplação.  E de gratidão. Enquanto te vejo dormir aqui do meu lado, tão em paz,  penso em toda a sequência de acontecimentos, fatos e ações que foram cuidadosamente orquestrados para que, a despeito deste início tão distante, em que ainda não sabíamos sequer  da existência uma da outra, pudéssemos nos encontrar. E fomos trazidas para tão perto, mas tão perto, que posso me ver nos seus olhos, desde que você chegou. E acho que você também me vê um pouco em você, pelo menos quando coloca o meu sapato alto, puxa meu cabelo castanho para cobrir o seu cabelo “roiro”, e olha para o espelho dando risada de como somos tão parecidas.

 E em tudo isso vejo na verdade uma grande vantagem. A consciência que o nosso início distante nos traz, me reabre todos os dias os olhos para o que realmente importa, e me lembra de como o tempo é malandro e foge à toa se a gente deixar. Eu sei que preciso te dar colo todas as vezes que você pedir, ainda que você esteja pesando 17 kg. Eu seu que preciso correr o quanto for preciso no trabalho, e às vezes sair no meio da reunião, para vir almoçar com você e te ver contar qual “poleguinha” faltou hoje na escola. Eu sei que na sua aula de ballet, que mais parece uma pintura animada de pinguinhos de tinta cor de rosa que pulam, não se deve perder um minuto sequer olhando o celular. Muitas mães não sabem. Nós duas sabemos.

E ainda que eu tenha perdido alguns fatos daquela época, que me vêm à mente agora, na véspera do seu aniversário, penso com uma gratidão sem tamanho nos que já pude presenciar, e nos que estão por vir. Seu terceiro ano de vida, e tudo o que vivemos juntos neste tempo, trouxe ao meu coração uma alegria cuja grandeza ainda  não aprendi a descrever. E se não consegui descrever, talvez o texto não tenha, afinal, servido de nada. Mas pelo menos acho que agora consigo dormir e esperar em paz, assim como você, a hora de dar bom dia para minha filha de 4 anos. 


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Lágrima de fada

Era uma vez, uma princesinha, que nasceu muito longe de onde o papai do céu queria que ela tivesse nascido. Era uma bebezinha linda, encantadora.  Assim que ela nasceu, um anjo prestou muita atenção nela, e cuidou para que ela fosse morar em uma casa muito especial, até que o papai e a mamãe dela, pudessem encontrá-la e ir buscá-la.  Este lugar especial era a casa dos bebês, onde trabalhavam fadinhas muito especiais.

Fadinhas que cuidaram da bebezinha com tanto amor, tanto amor, que ela nem percebeu o tempo passar enquanto esperava o papai e a mamãe. Durante dois anos, deram todos os dias a bebeira para ela com muito carinho. Trocaram muitas e muitas fraldinhas, deram banho, ouviram as primeiras sílabas que ela falou. Levaram ela ao médico, e deram sempre na hora certa o remedinho que ele mandou. Foram elas que ensinaram a princesinha a engatinhar, e viram os seus primeiros passos. Atrás do portão fechado daquela casa, guardaram a bebezinha como uma jóia preciosa, com todo o carinho e cuidado que ela merecia.

Que trabalho mais lindo o destas fadinhas. Cuidar assim de uma princesa, sabendo que um dia ela iria para a casa dela com o papai e a mamãe. No dia em que eles chegaram para buscar a bebezinha, as fadinhas  estavam ao mesmo tempo felizes e tristes, um sentimento difícil de entender, mas que se via nas lágrimas que corriam pelo rosto de todas elas. Felizes porque finalmente tinha chegado o dia tão esperado, em que o portão se abriria e a princesinha conheceria o mundo lá fora, de mãos dadas com o seu papai e sua mamãe para sempre. Mas também um pouquinho tristes, pois sentiriam falta da princesa mais sapeca de que já cuidaram. A loirinha que abria o cercadinho para os outros bebês fugirem, e que roubava o prato de bolo de chocolate para comer escondida em baixo da mesa.

A mamãe da princesa nunca vai achar as palavras certas para agradecer o cuidado destas fadinhas, que fizeram pela bebê o que a mamãe não pôde fazer, enquanto não a encontrava.  Ela viu aquelas mesmas lágrimas no rosto das fadinhas ontem, quando foram todos juntos visitar a casa dos bebês pela primeira vez, passado pouco mais de um ano do dia em que vieram buscá-la. A princesinha pareceu não se lembrar do lugar, ou dos nomes e rostos das fadinhas que tanto lhe cuidaram. Mas as fadinhas não se importam. Elas sabem que ficará gravado para sempre no coração e na vida da bebezinha, o amor e cuidado que recebeu delas naquele tempo. Elas cuidam agora com o mesmo carinho de outros bebês que estão a espera de seus pais, outros pequenos príncipes e princesas que foram escolhidos por Deus e para merecerem o cuidado  das fadas de avental verde, fadas que apesar de chorarem de vez em quando, sabem que têm o trabalho mais importante do mundo.


Obrigada fadinha Naty, fadinha Roseli, fadinha Eunice bebê, Fadinha Viviane, fadinha Valéria e todas as outras fadinhas da casa dos bebês. Vocês morarão para sempre no nosso coração.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Carta para a Tia Paulinha

Aprendi tanta coisa neste primeiro ano de escolinha, que é difícil até de contar. Contar mesmo eu já sei, até 10 sem nenhum tropeço, é até 20 mudando a ordem do "cacorze" e do "dezeoito" de vez em quando. E embora eu já conheça muito bem a letra do meu nome, e razoavelmente bem a letra do nome do João, da Maria Clara e da Luana (a da Gabi não vale... é a mesma letra do meu!), ainda preciso aprender algumas letrinhas até que eu possa escrever esta carta sozinha. Sendo assim, por ora, ela vai ser escrita pela minha mamãe... ela gosta mesmo de escrever e está com um sentimento de aperto no peito, querendo falar mesmo umas coisas para você, minha querida Tia Paulinha. Isso tudo porque amanhã é o meu último dia de aula. Último dia de aula com a minha primeira professora. Ou o meu primeiro último dia de aula. Primeira... último... Que complicado! Então aí vai.

Tive a grande sorte de ser aluna da única professora do mundo que vai para a escola todo dia e não trabalha. Não é que você não dê aula ou não cuide da gente direitinho não... muito pelo contrário! Você mesma diz que ama tanto o que faz, mas tanto, que, para você, segunda-feira é o dia mais feliz da semana. Isso porque, como você disse à minha mamãe logo que se conheceram, a sua profissão é tão boa que nem parece trabalho. Engraçado... lá em casa é o contrário. Na segunda-feira tanto a mamãe quanto o papai costumam me dar mais bronca do que no sábado... Acho que o trabalho deles parece trabalho mesmo.

Disciplina japonesa, com carinho brasileiro, Foi o que a mamãe ouviu na primeira reunião de pais, e o que eu encontrei todas as manhãs que passei com você, tia Paulinha.   A paciência tinha que ser mesmo oriental... eu sei que dei trabalho para a aprender a passar "colinha no bumbum", e parar quietinha na cadeira na hora do lanche. Mas você nâo desistiu, tia Paulinha, e até ensinou a minha mamãe como é que se faz. Agora tem colinha lá em casa também.

Também aprendi a comer a frutinha primeiro, a agradecer o lanchinho e desejar bom apetite e andar de costas pelo corredor puxando os amiguinhos pela mão. Igualzinho você, tia Paulinha! Meus desenhos, que eram abstratos rabiscados, são agora abstratos com olhinhos e perninhas, que todo mundo acha que são ETs (mas eu e você sabemos muito bem que são o lobo mau e a chapeuzinho)! E você e a tia Carla me contaram esta história - minha preferida - de novo, de novo e de novo, sempre que eu trazia o meu lobo ou que você deixava a gente usar a capa vermelha . Foram tantas vezes,  que eu não vou nunca mais me esquecer. Assim como eu nunca vou esquecer o tanque de areia, os dias da culinária, o dia e que a gente andou de "omnimus" para ir ensaiar quadrilha na escola dos grandões, o lindo e delicioso dia da piscina (que foi um só, apesar das suas tentativas!), o dia em que a gente subiu no palco pela primeira vez para ensaiar, e o sempre tão esperado...  dia do brinquedo. Acho que eu nunca te contei na nossa roda de conversa, tia Paulinha, mas todos os dias do ano letivo eu acordei peguntando para a minha mamãe, antes mesmo do bom-dia: "hoje é dia do brinquedo?"

É isso que você faz com a gente, tia Paulinha. Você não apenas ensina para a gente o nome das cores, o círculo o triângulo e o quadrado. Você não apenas mostra para a gente que a vida tem uns combinados que a gente tem que cumprir. Você não apenas ensina a gente que dá para ficar umas horinhas longe da mamãe sem chorar. É muito mais que isso, Tia Paulinha. Mais do que ler os livros do "Mundinho" em voz alta, você insere a gente em um mundo novo, no mundo da escola, na qual à passaremos muitos anos da nossa vida. Graças a ter tido você como minha primeira professora, tia Paulinha, esses dias cheios de alegria ficaram gravados no meu coração, assim como a tinta ficou para sempre nas minhas camisetas de pintura... se depender da minha primeira professora, acho que também vou gostar muito das segundas-feiras. Obrigada, de coração!



Um grande obrigado também para a tia Carla, que nunca se cansou de cantar comigo a música da Ana e da Elza, e que regou com todo carinho o meu pezinho de hortelã, dentre tantas outras coisas. Obrigada também à Tia Isa, que nos conquistou tão rapidinho, e à querida tia Gi, que com tanto carinho me fez sempre companhia na espera da minha mamãe atrasada.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Crescer dói a cabeça!

A cabeça da Gi bateu pela primeira vez no batente da porta da casinha de madeira que tem aqui no nosso prédio. Isso nunca tinha acontecido antes. Ela passava direto correndo, sem precisar abaixar. Antes mesmo que eu me desse conta do seríssimo significado do ocorrido, ela mesma, em sua esperteza, adiantou: “Mamãe, eu já estou gandona!” (sic).

Ai que dor. Não na minha cabeça, que não foi a que bateu, mas no meu coração. Contraditória e inconsistente, é isso que eu sou. Brigo todo dia com a Gi para ela comer tudo, para crescer e ficar forte. Mas ao ver ela crescer tão rápido, quero secretamente que ela fique pequenininha por mais tempo. Como ela mesmo diz com frequência: “que mamãe maluca!”.

Está para completar um ano que a nossa vida mudou para sempre. Foi o ano mais feliz de que posso me lembrar. Comparando o índice pluviométrico de lágrimas, com os dos anos passados de tão longa espera, tivemos uma seca histórica. Houve sim alguns momentos de aflição e angústia. Queríamos presentear a Gi com algo muito importante que a vida pareceu nos oferecer, mas acabou nos negando. Daí vieram as lágrimas que não deixaram o índice zerar. Foram poucas, mas muito doídas. De todo modo, hoje sabemos que houve uma razão para Deus nos fez esperar tanto tempo da primeira vez: a Gi ainda não estava pronta. Agora, tenho que acreditar que toda negativa da vida tem uma razão, que talvez viremos – ou não – conhecer um dia.

Neste ano a Gi colocou de fora as asinhas, que, por um bom tempo, ela não teve espaço suficiente para bater. Passou das poucas palavras à atual metralhadora de porquês (a gente segue procurando o botãozinho onde desliga a matraca, que vira e mexe dispara desenfreada). Curte tudo o que tem direito, no limite. Quer brincar até o último suspiro de sono. Já acorda falando do que quer fazer hoje. Nas nossas férias na Alemanha, ela mostrou que não passa apertado no quesito sociabilidade, nem mesmo no estrangeiro. Ficamos com cara de pastel, ao observar a figurinha interagindo no parquinho com crianças que não entendiam uma palavra do que ela dizia. Alguns olhares e um sorriso bastavam, para que ela conseguisse rapidamente a chance de brincar junto com eles. Seguimos aprendendo com a nossa pequena grande pessoa. E até diversificou o vocabulário: “Nein”! É agora a resposta padrão quando a chamamos para escovar os dentes.

Ainda que a nossa casa seja hoje muito menos organizada do que antes e a nossa rotina em alguns horários quase caótica, toda essa bagunça me trouxe, por mais paradoxal que pareça, acima de tudo, equilíbrio. É de equilíbrio a sensação que tenho ao ver a foto dela sobre a minha mesa de trabalho, mesmo quando o bicho está pegando por lá. É equilíbrio ajudá-la a escolher que boneca ela vai levar para escola no dia do brinquedo, antes de ter que escolher qual e-mail eu vou responder primeiro na empresa. É equilíbrio acordar de noite com o chorinho dela se escapou xixi na cama, ao invés de acordar pensando no contrato que preciso fechar no dia seguinte.

Sou grata todos os dias por este equilíbrio, e pela Giovanna estar crescendo linda e saudável. Junto com ela cresço eu. Vou me tornando não só mais mãe a cada dia que passa, mas aprendendo que, ainda que doa um pouco, a gente nunca pára de crescer.
Giovanna batendo as asinhas na Alemanha

segunda-feira, 17 de março de 2014

Seis meses



Estão para terminar os seis meses mais marcantes de toda a minha vida. Licença maternidade é uma invenção moderna para dar à mulher que trabalha uma pequena provinha daquilo que ela foi, na verdade, criada para fazer o tempo todo: cuidar dos filhos.   Por este ponto de vista, é um período engraçado, em que de uma hora para a outra a gente vira “café com leite” no trabalho: seja por força de lei, seja por bom senso, ninguém mais nos cobra nada. Quando te ligam pedem mil desculpas. Os e-mails não esperam mais ser respondidos. Os convites para reuniões param de chegar. Tudo isso porque um bem maior e muito mais frágil do que qualquer assunto de trabalho depende da nossa total atenção. Temos pouco tempo para despertar o instinto materno, adormecido pelas infindáveis reuniões e abafado pela roupa de trabalho. Temos que esquecer a senha do computador e a rotina de escritório para aprender rapidamente uma tarefa completamente nova: cuidar de um bebê.

Bom, para mim, a licença maternidade foi ainda mais do que isso. Em apenas 6 meses, vivi acontecimentos que a maioria das mães vive em 2 anos. Explico com um exemplo.

No período de seis meses troquei a primeira e possivelmente a última fralda da minha vida. Ainda me lembro do frio na barriga que deu, quando ainda no abrigo a cuidadora me disse: essa fraldinha aí a mamãe é que vai trocar... e agora, poucos meses depois, a nossa bebê desfraldou, dia e noite, logo na nossa primeira tentativa. Ficamos nós dois, bobões, com o estoque enorme de fraldas que compramos logo que ela chegou, guardado lá na dispensa, ao lado das latas de molho de tomate. E a cereja do bolo veio estes dias, quando este recém desfraldado ser olha para mim com uma cara bem séria e diz: “a mamãe não vem, tá?... a mamãe fica aí... a Vana quer fazer xixi sozinha”, e fecha a porta do banheiro na minha cara. Ainda com a testa apoiada na madeira da porta, penso: será que o músculo do nosso coração foi feito para suportar acelerações tão bruscas? Um misto de orgulho e pesar me consome: ela vai mesmo crescer, e não vai ser devagar.

Foram seis meses de incontáveis primeiras vezes, cada uma com a carga de emoção e adrenalina que lhe cabe: primeira vez que alguém me chama de mãe, primeira vez que faço alguém dormir no meu colo, primeira vez que preparo uma mamadeira, primeira vez que levo alguém ao pediatra, primeira noite sem dormir, primeira vez que a vacina na perna de outrem dói em mim, primeiro corte de cabelo, primeira ida ao restaurante, primeira febre, primeira diarreia que eu limpo, primeira vez que decido furar a orelha de alguém, primeira festinha em buffet, primeira bronca, primeira palmadinha no bumbum, primeira vez que eu choro por dar uma palmadinha em um bumbum, primeira ida ao teatro, primeira ida à piscina, primeiro Natal com criança em casa, primeira visita ao zoológico, primeira ida à praia, primeira viagem em família, primeira ida ao dentista, primeira vez que ela calçou os sapatos sozinha, primeira frase dela com sujeito, verbo e predicado,  primeira, primeira, primeira...

E agora, para completar a volta dessa montanha russa da maternidade expressa em 6 meses, teve recentemente o primeiro dia de escola. Lá foi a pequenininha, toda de uniforme, orgulhosíssima da sua primeira mochila, de rodinhas, com um palmo e meio de altura. Se teve choro? Claro que teve. Só que não da aluna nova... só da nova mãe.


Essa experiência só me faz perceber o quanto a vida pode surpreender, transformar-se em tão curto espaço de tempo, e o quanto precisamos permanecer atentos para perceber tudo isso acontecendo e não deixar passar nada despercebido. Vale como alerta, que escrevo aqui para eu mesma não esquecer, nem mesmo depois que o meu período de café com leite tiver terminado.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Em mãos

Hoje parei para olhar para você, hipnotizada pelos seus olhões de jabuticaba, e fiquei com uma vontade enorme de dizer um monte de coisas que, aos 2 anos de idade, suspeito que você ainda não vai entender. Eu disse algumas delas mesmo assim. Mas agora que você dormiu – o que vem ocorrendo cada vez mais tarde da noite -, recorri ao teclado para registrar esta vontade por escrito, não deixar este sentimento escapar pela boca e se dissolver na forma de som, que se perde no ar e pode nunca mais ser encontrado. Preso na forma de letrinhas, talvez eu consiga me lembrar deste sentimento em alguns anos, e talvez eu ainda consiga te mostrar um pouquinho dele.

Quando olho para você, vejo a imagem da coragem. Acho um paradoxo olhar para uma pessoa tão pequena, e pensar em uma qualidade com esta, normalmente das pessoas grandes e fortes. Na sua pequeneza e fragilidade de criança, você nos dá diariamente uma lição de coragem.  Afinal de contas, depois de apenas 4 ou 5 visitas, te tiramos de um dia para o outro do lugar que era tudo o que você conhecera desde que nasceu. Te tiramos da companhia das titias que te cuidaram com tanto carinho e te amaram nestes 2 anos de vida, e que eram as únicas pessoas com quem você havia tido contato. Te trouxemos para uma casa nova, te apresentamos dezenas de rostos que você nunca tinha visto (e que pedem beijos toda hora como gente grande tem mania de fazer).  Mudamos o tempero da sua comidinha (muito provavelmente para pior, já que sou eu que cozinho), te colocamos para dormir sozinha em um quarto com uma cama, quando você estava acostumada a dormir no berço e na companhia de vários bebês como você. E para piorar, na sua chegada deixamos cair a sua chupeta atrás do banco do carro, e nunca fomos apanhar. 

Resultado? Nenhuma lágrima, nenhuma expressão ou palavra de medo ou insegurança, desde que entrou pela nossa porta.  Nenhuma! É como se aos 2 anos de idade você tivesse conscientemente decidido virar uma página da sua vida, aceitando com alegria e coragem tudo o de novo que viria pela frente, desde o dia em que fomos te buscar. Lembro bem quando nos contaram que, no dia da sua vinda, você estava desde cedo com a malinha pronta, esperando que abrissem o portão para ir para o que tinham te contado ser a “casa nova”. Quem reage assim a mudanças? Conheço gente que gastou horas com o terapeuta por muito menos. Eu mesma já fiz drama por não querer mudar de sala no trabalho. Sim, como toda criança você também chora, é claro. Mas chora para ficar mais tempo na balança, para não ter que escovar os dentes, porque estão soltando fogos lá fora ou porque quer comer mais bolo. Nunca acordou de noite chamando por um nome que não fosse papai ou mamãe. Nunca sequer sugeriu não ser esta a sua casa. O nosso maior medo, que era você estranhar tantas mudanças e se sentir insegura, nunca se concretizou. Naquela primeira noite aqui em casa, você dormiu tranquila por 12 horas ininterruptas, e eu, umas 2.  

Quando olho para você, vejo também a imagem da desmistificação. O colo sempre compartilhado, a espera mais longa para atenderem ao seu choro, o brinquedo que talvez não fosse o mais estimulante, a falta de alguns dos tantos mimos que cercam os bebês que crescem em casa, à base da melhor fórmula e complemento vitamínico importado... nada disso te impediu de se tornar uma criança perfeita, linda, meiga e esperta, que chama a atenção aonde vai.  Aprende absolutamente tudo o que ensinamos, e nos surpreende quando aprende o que não estávamos sequer cientes de ter ensinado. Ver você descobrir o mundo, aprender tantas palavras por dia, contar até dez, tentar contar até vinte, imitar os bichos que viu no zoológico, lembrar o nome dos nossos amigos, mandar a gente calçar os sapatos por que “o chão tá frio”, cantarolar musiquinhas, perguntar o tempo todo “o que é isso aqui?”, dançar ballet sempre que escuta música clássica no rádio, colocar o CD para tocar sem ajuda, pedir para fazer xixi, querer vestir a roupa sozinha, querer tirar a roupa sozinha, querer fazer tudo sozinha, nos passar pelo menos uma rasteira por dia, com as suas tiradas impagáveis... é como destruir, de uma só vez, muitos dos mitos que ouvimos por aí, sobre o que de fato é necessário para o desenvolvimento infantil saudável.  

Enfim, quando olho para você, vejo acima de tudo a mão de Deus. A mão que nos levou até você, no mar de cadastros, registros, listas de pretendentes, pilhas e pilhas de papeis, balcões de cartórios,  prazos legais e burocracias, servidores públicos motivados e às vezes nem tanto.  A mão que te guardou, te protegeu e te sustentou este tempo todo, te entregando para ser cuidada por tantas (e tão abençoadas) mãos neste período, até que pudéssemos nós mesmos te cuidar. A mesma mão que um dia, se Deus quiser, nos permitirá te entregar esta carta, em mãos, quando você puder entender, direitinho, tudo o que tentei escrever nela. A mão que nos permite hoje segurar bem firme na sua, e te dizer de boca cheia e cheios de gratidão: “dá a mão para a mamãe”, “dá a mão para o papai, dá?”.

Foto: Nilce Pompeu

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O meu armarinho branco

Não é segredo, para ninguém, que voltamos de Berlim um pouco contrariados. Me lembro de sentar no nosso quarto de lá, alguns meses antes do retorno, olhando fixamente para o armarinho branco que tinha no nosso quarto, e pensar que eu não queria abrir mão dele. Não queria mesmo, de jeito nenhum. O guarda-roupa pequenininho, em estilo antigo mas comprado na Ikea, representava nessa hora muito mais do que um móvel simpático. Era o símbolo de uma vida sem armários embutidos, sem carro, sem medo de andar na rua, e em que nem tudo precisa estar ornando ou conforme o protocolo. Se preferir uma descrição mais conceitual, uma vida com mais mobilidade, mais simplicidade, mais autêntica e com menos frescura.

Em Berlim me senti mais jovem do que me senti aqui no Brasil há 10 anos. Voltar de um jantar de amigos de madrugada de bicicleta, ir à festa de casamento de outro amigo de ônibus (sim, de ônibus!), levar banana na bolsa para comer no trem. Deixar o armarinho branco lá seria perder tudo isso, e de uma vez. Trazer ele para cá e não ter onde colocá-lo (já que vivemos em uma sociedade de armários embutidos tediosamente planejados) poderia ser um choque ainda pior.

Tentei até me desfazer dele de forma altruísta, doando para uma colega do trabalho que estava precisando de um armário novo. Ela não tinha carro para ir buscar lá em casa e achou o frete profissional muito caro. Preferiu deixar para lá. Estava selado o destino do armarinho. Rumo ao Brasil, assim como nós.

Como muitas coisas na vida, depois de algum tempo (às vezes mais, às vezes menos) entendemos que a picada da injeção era de fato para o nosso bem, como a mamãe sempre disse. Neste caso, não inventaram ainda régua, balança ou escala que seja capaz de medir o tamanho do bem que nos esperava aqui. Na semana que que se completaram 2 meses desde que a Giovanna chegou, não escrevi enquanto ela dormia a soneca da tarde, como nos últimos posts.

Por alguma razão nesta tarde ela não quis dormir na caminha dela, e tive que deitar com ela na minha cama, até o soninho chegar.  Do jeito que me deitei, de barriga para cima e com ela debruçada sobre o meu peito, respirando fundo e quietinha, fiquei bem de cara com o armarinho branco, exatamente ocomo eu fazia nos meus dias despedida de Berlim. Tive a imediata sensação de que Deus poderia muito bem estar sentado bem ali em cima do armarinho (que afinal coube na nossa nova casa no Brasil), me encarando e balançando displicentemente os seus pezões celestiais, rindo da minha incredulidade daqueles tempos. Aqui estou eu com esta jóia adormecida nos meus braços, não apenas me sentindo mais jovem... mas revendo a infância  de perto, diariamente, pelos olhos da minha filha. Era preciso voltar e abrir mão da vida que tínhamos lá, para encontrarmos esta pessoinha tão especial aqui, na hora certa e no lugar marcado. E de lambuja, Ele até deixou a gente ficar com o tal do armarinho. No que depender da Gi, vamos continuar levando banana na bolsa por um bom tempo. E, agora em três, onde quer que estejamos, vamos continuar, na medida do possível, tentando evitar os armários embutidos pela vida!





segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Enquanto você dorme – Parte 2

Hoje faz um mês que você chegou em casa e eu decidi que a data merece uma segunda carta. Afinal de contas, 30 dias se passaram desde que você explorou a nossa casa pela primeira vez, abrindo todas as gavetas e portas de armário, escondendo os controles remotos e andando de um lado para o outro no corredor, tentando achar de novo a porta do seu quartinho. Quartinho esse que você reconheceu como seu e do qual tomou posse imediatamente, ao ver uma cadeira de balanço e um cavalinho vermelho, que te esperavam para ser balançados.

Nestes 30 dias muita coisa mudou na nossa vida e na nossa rotina. Todas as manhãs tenho acompanhado a sua empolgação, enquanto fica sentadinha no vaso esperando ouvir o barulhinho do cocô cair na água. E quando o tão esperado evento acontece, com que alegria você me olha e chama o papai, a vovó, a Sandra (nossa ajudante da limpeza) e quem mais estiver - ou não estiver - em casa, só para ver o seu feito!!! Para quem usou fralda a vida toda até agora, é mesmo um enorme passo para a libertação: o raiar de dias de mais dignidade! De fato, tudo deve ser mais digno do que seguir com o cocô grudado em você até alguém se lembrar de trocar a sua fralda.

E por falar em raiar do dia, faz tempo que não ouvia alguém dizer com tanta convicção “bom dia sooooool” ao abrir a janela de manhã... mesmo que esteja chovendo cântaros, como é o caso de hoje. A simplicidade das coisas que te fazem feliz, faz a gente ver o mundo com outros olhos. Hoje ao sair com você para ir buscar banana – cujo consumo aqui em casa bateu agora recordes históricos – notei que um canteiro extenso de flores tinha aberto os seus botões de ontem para hoje. Não  tinha nem reparado neste canteiro até outro dia, quando você começou a apontar para as "fozinhas" no jardim.

O seu radarzinho para as coisas que são importantes para você, fazem a gente olhar para direções que nunca havíamos olhado. Da janela do carro – que mantemos fechada e travada contra o seu dedinho nervoso – você avista brinquedos coloridos aonde for. Agora me dei conta que todo Mc Donalds tem uns brinquedos de plástico na porta. Juro, nunca tinha reparado. E em avenidas que a gente passa tão rápido, só de olho no trânsito e no radar, você já detectou todas as lojas de playgrounds e piscinas de fibra de vidro, que ficam ali expostas sem água e em pé. Não importa. Você quer entrar nelas mesmo assim. “Po maiô, mamãe?”

Demorou uns dias para eu entender que fugir só de fralda pela casa, e não deixar eu colocar a sua roupa depois do banho, não é um ato de rebeldia ou protesto. É uma das horas mais divertidas do dia  para você. Você sabe que deste pega-pega a gente não vai desistir, e isso dá mais graça na brincadeira. E quando você cansa de correr, se enrola na barra da cortina rendada (ou seja, transparente), e fica ali quietinha, ofegante, certa de que a gente não consegue te ver. Também só agora estou entendendo, que te dá um certo prazer dizer não. "Não" para tudo - ou quase tudo - que a gente te oferece. Com a exceção de danone, maçã, bolacha e banana (sobre a qual já falamos acima), sua resposta é sempre não. E com uma veemência quase que dramática. Acho que é só para garantir a sua posição na negociação e deixar claro que você, aos 2 anos de idade, já tem o poder de decidir o que engole e o que não engole mais. Justo. Sorte que na maioria das vezes, você reconsidera a questão e acaba mandando quase tudo para dentro!

 Não dá para descrever tantos sentimentos com precisão, a menos que o camarada seja poeta. Só sei que ter você aqui é como começar a ler um outro capítulo do livro da vida, o qual até agora, só havíamos visto no índice, assim de relance. Sentimos orgulho quando você cativa os nossos amigos, ternura quando você nos pede colo, achamos graça das suas carinhas, nos preocupamos quando você tosse, nos sentimos impotentes quando você diz que não vai comer e não come mesmo, e derrotados quando você acha o castigo divertido. É, o capítulo novo promete!