...palavras são o que teimamos em usar para vesti-las.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Milagre em Curso

Faço tudo para evitar o pensamento que insiste em vir a minha mente, enquanto escuto com atenção o vizinho explicar que mora aqui mas trabalha em Rostock, que é professor universitário, que sua mulher vem da Suécia, que gosta de Berlin por causa disso e daquilo, que ainda bem que a agora a chuva parou, que gostou muito da América Latina quando esteve lá há quatro anos, que achou uma ótima ideia essa festinha do condomínio para a gente se conhecer melhor, que agora vai experimentar a sobremesa, etc., etc.

Não posso pensar, não posso pensar, não posso pensar... pronto pensei: “será mesmo verdade que estou entendo tudo o que ele está falando? Não pode ser, meu Deus... isso é alemão”!

E é aí, precisamente, quando sucumbo a este pensamento, que a vaca vai para o brejo, ou iria, se tivesse um brejo por aqui. Me desconcentro, perco um montão de frases, uma atrás da outra. Preciso respirar fundo e pedir gentilmente para que a pessoa repita o que acabou de dizer, se possível um pouquinho mais de vagar (“langsam, bitte!”).

A gente sempre escuta dizer que é capaz de aprender qualquer coisa, que é só uma questão de tempo e oportunidade. Tenho tido na minha vida, experiências um tanto ilustrativas neste sentido, embora tenda a esquecê-las nos momentos de dificuldade e frustração. Oportunidade mais cinco anos de estudo pode resultar, por exemplo, em um dentista ou um advogado. Dez anos, e muita oportunidade, podem até resultar nos dois.

Retrospectivas à parte, o certo é que alguma coisa está acontecendo bem agora aqui dentro da minha cabeça. É algo misterioso, místico, um milagre. Ainda tem muita coisa que não entendo, mas a quantidade de informação que consigo depreender de uma conversa, como aquela com o meu vizinho, é espantosamente maior do que há alguns poucos meses atrás. Já não posso dizer que alemão para mim é grego. É difícil pacas, mas é alemão.

Se isso não for um fato sobrenatural, então não sei o que pode ser. Quem foi que fez nossa cabeça assim tão maleável, a ponto de ser capaz de absorver, ainda que aos poucos, algo tão espesso e viscoso como essa língua? Quem foi que projetou nossos ouvidos de uma forma que, depois de certo tempo, aprendem naturalmente a reconhecer o que passaram trinta e tantos anos sem nunca ouvir? Só espero que este mesmo projetista (que eu sei muito bem quem é, e você também) dê ainda um jeito na minha garganta. Esse modelo brasileiro de “campainha” requer uma adaptação, para que um dia eu consiga pronunciar o “R” daqui, sem ninguém fazer careta e pedir para eu repetir a palavra três vezes. Tá bom, às vezes quatro.





domingo, 22 de maio de 2011

Primavera em Berlin

Não foi à toa que não escrevi nada no mês de abril. No mês de abril todo mundo tem mais o que fazer em Berlin. As árvores, por exemplo, têm que abandonar o seu aspecto seco e cascudo dos últimos 5 meses, preparar os primeiros brotinhos e explodir em folhas enormes e verdíssimas, tudo em um intervalo de 4 semanas. As flores tem que ressurgir subitamente dos bulbos há muito tempo enterrados e dos arbustinhos que se fingiram de mortos durante todo o inverno. E o fazem em cores escandalosas que eu nem sabia que existiam aqui, onde meus olhos se acostumaram com tanto cinza.

Tudo na primavera é exagerado. É como quando a gente emerge na superfície da água, depois de ficar um tempão sem respirar. Aquela tomada de fôlego profunda, quase que em desespero. De um dia para o outro, todo mundo foi para a rua. No primeiro final de semana em que a temperatura passou dos 15 graus, pensei que estava acontecendo alguma manifestação no nosso bairro. Não sabia que morava tanta gente aqui. Onde estava todo mundo, esse tempo todo?

As saias estão subitamente muito curtas. Nunca vi tanta perna de fora, pelo menos fora da praia. Para fora também estão todas as mesinhas dos restaurantes, cujo interior, ora aconchegante e quentinho, agora é escuro e muito menos atrativo do que mormaço lá de fora. Os passarinhos cantam muito, e muito alto (alguns um pouquinho cedo demais). O sol não quer ir embora antes das 9 da noite. O por do sol é tão longo, que a gente desiste de assistir. As árvores estão tão carregadas, que soltam no vento uma pluminha branca feito algodão, dançando para lá e para cá, aos milhares, como se a primavera quisesse oferecer de tudo, até um pouquinho neve, mas ao seu próprio estilo.

Da nossa sacada pudemos observar a mudança também na casa das pessoas. Janelas finalmente abertas, arrumação nos jardins e floreiras, criançada e suas toncas para fora. Na feira, além de todas aquelas frutinhas vermelhas que a gente não sabe o nome, é tempo de aspargo. Esse legume está para o alemão assim como o carnaval está para o carioca. É uma febre, uma unanimidade, quase que sagrado. Sendo estrangeiros, então, não passamos um dia sem que um alemão nos pergunte, com aquela expressão de expectativa e orgulho: “e então, o que estão achando dos aspargos”? Todo mundo tem uma opinião sobre qual é o melhor, o mais fresco, e a melhor maneira de preparar. E como o carnaval, ele só dá nessa época, por isso, quanto mais você aproveitar, melhor, por que depois... só no ano que vem.

Parece que a gente se mudou de cidade, sem sair de Berlin. Tudo está diferente de quando chegamos aqui. Até a gente está diferente. Nunca valorizei tanto uma brisa morna no rosto, um pé descalço na grama, uma camiseta de manga curta. Acho que as estações fazem isso com a gente. Ensinam desfrutar aquilo de que fomos temporariamente privados, ou que sabemos que não estará aqui para sempre. Tudo muda, para depois mudar novamente. Se a natureza faz assim, quem somos nós para achar que deve ser diferente? Estou gostando de contemplar isso tudo pela primeira vez, aqui da nossa sacada, que só recentemente passamos a frequentar.


sexta-feira, 18 de março de 2011

Poucas palavras

Conheço um advogado que trabalha em Londres, há dois anos, na condicao de expatriado, assim como eu aqui. Agora chegou o momento de ele voltar para o seu país de origem. O Japão.

Engraçada esta situação, por que nós passamos os últimos 5 meses brigando, cada um defendendo a companhia para a qual trabalha. Conversamos sempre em uma língua que nao é a minha nem a dele, morando ambos em países em que somos apenas visitantes. Brigamos por um dinheiro que não pertence a nenhum de nós dois. Diferenças e semelhanças que acabaram por criar um laço de respeito, e por que não dizer, de solidariedade, que hoje se materializou em algumas poucas palavras, digitadas.

Ele me escreveu um e-mail curto, em um tom educado e respeitoso, que acho que todo bom Japonês conserva, nao importa onde more. Avisou que os próximos contratos deverão ser enviados para o seu sucessor, fulano de tal, que era grato pela minha paciência durante as intermináveis negociações (que ainda não terminaram), e que havia sido um grande prazer trabalharmos juntos. Me desejou, ainda, um tempo de boas vivências aqui em Berlim. Pude sentir a mistura de sentimentos nas suas palavras, quando ele disse que, quanto a ele, havia chegado a hora de voltar para o Japão.

Fiquei imaginando como se sente alguém que volta para casa em um momento como esse, em que o seu país vive uma triste mistura de luto e medo. Ouço tanta gente falando sobre como os japoneses são conformados, calmos e disciplinados. Talvez seja culpa dos olhos estreitinhos, que não deixam transparecer todos os sentimentos... Não pude ver os olhos do meu colega hoje, mas imagino que eles devem estar cheios de medo e angústia, querendo passar por aquele pequeno espaco entre a pálpebra de cima e a de baixo. Pelo menos, foi isso o que eu pude enxergar entre as palavras ali digitadas.

Respondi a ele dizendo que mal consigo imaginar o momento difícil que o país dele está passando, e desejei que ele encontre a sua família e amigos em seguranca. Acho que é a primeira vez que mando um e-mail para ele, nestes 5 meses, e torço para não receber uma resposta. Afinal, não há o que falar. Aí acertam os Japoneses, na minha opinião, que ouvem mais e falam menos.

Tudo isso me fez pensar sobre o Brasil, e como me sentiria em voltar e não encontrá-lo como o deixei. As pessoas, o ambiente, a vida. Quando vamos para longe, temos tantas distrações, novidades, desafios, que nem paramos para pensar como o que temos lá em casa também é bom, também é bonito, também funciona... ao menos para a gente.

Hoje sinto pelo meu colega, e pelo que ele vai encontrar ao sair do aeroporto. Vivemos em um mundo com tantas oportunidades e possibilidades. Mas há uma que sempre queremos conservar, não importa o que aconteça: a possibilidade de voltarmos para casa, quando quisermos, e a encontrarmos lá.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Abrindo o bico

Bastou a neve aqui dar uma derretida, e já se pode ouvir, de volta, o canto dos passarinhos. Isso outro dia me fez pensar na vida do passarinho. Ele tem basicamente duas necessidades, pelo menos até onde eu sei. Comer e fazer outros passarinhos. A primeira já é uma tarefa e tanto, pelo menos num frio como esse. Coitado. Não sei que tipo de minhoca sobrevive nesse chão gelado. E nas árvores, já não tem folha alguma há muito tempo, quanto mais frutinhas pra se beliscar. Então a simples tarefa de arranjar o que comer já deve ser, por si só, um desafio. Quanto a fazer outros passarinhos, não sei detalhes sobre a reprodução das aves, mas imagino que os instintos devem tomar conta da maior parte. Depois, a tarefa se resume, novamente, a encontrar o que comer, agora para si próprio e para a cria. De qualquer forma, sei que escrevo aqui correndo o risco de subestimar a complexidade da vida do passarinho, cometendo uma enorme injustiça. Mas ainda assim, vou arriscar.

Imagine como seria viver tendo apenas um ou dois objetivos bem definidos a cumprir, todos os dias. Não as múltiplas e complexas tarefas e preocupações que a gente tem, ou acaba dando um jeito de arrumar. Conte, nem que seja bem por cima, o número de assuntos com os quais você lida todos os dias. A começar pelos seus dois ou três principais pepinos no trabalho, passando pelas coisas pequenas do dia-a-dia como aquela consulta que você esqueceu de marcar, o sabão em pó que acabou, o telefonema que não deu tempo de retornar, os horários aos quais nos obrigamos e, ainda, pelas coisas que ocupam as nossas mentes enquanto tentamos fazer tudo isso: medos, inseguranças, saudades, frustrações, ansiedades, incertezas...

É coisa pra chuchu. Sorte do passarinho, sentado lá fora. É verdade que o galho que ele escolheu está balançando um bocado, e deve estar um frio daqueles. Mas acredito que ele também não sente muita coisa, além de frio e fome. Já gente... Gente tem tantos sentimentos, que às vezes faltam palavras para descrevê-los. Eu mesma tenho alguns que nunca vi definidos, tais como deveriam, no dicionário. Já reparou a facilidade com que eles se sobrepõem, se acumulam e se instalam no nosso peito, principalmente nos dias em que resolvemos dar uma paradinha para pensar na vida? São tantos e às vezes tão grandes que não caberiam, definitivamente, naquele peitinho aveludado, por mais estufado que seja.

Acredito que essa capacidade que a gente tem de fazer tantas coisas, pensar sobre elas, senti-las, guarda-las e lembra-las, é o que nos faz gente. Me sinto abençoada por dispor de todas as ferramentas para lidar com estas complexidades da vida, embora não agradeça tanto e tão frequentemente quanto deveria. O fato é que também é um desafio, saber até onde devemos ser gente, e a partir de onde devemos ser um pouco passarinho. Manter simples o que pode ser simples, focar no que é realmente importante, e cantar, até mesmo antes de o inverno acabar. Esse aí da janela acabou de voar. Quando ele voltar, vou ver se peço umas dicas.

Foto: Carlos Pompeu


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Uma questão de estatura

Alguma vez você já se sentiu pequenininho? Não vale pensar em quando você era criança, mesmo porque, embora pequeno em estatura aposto que você se sentia grande o suficiente para subir naquele muro, ir sozinho naquele lugar, ou chegar tarde daquela festa. Quero dizer pequenininho em um sentido não tão óbvio, pequeninho por dentro, com pouco a oferecer, ou muito para aprender, como queira.

O engraçado, é que, às vezes, tanta gente nos vê grandes, enquanto nós sabemos da nossa pequeneza. Só a gente tem consciência do que nos falta ainda saber. E sabemos que talvez haja ainda mais.

É uma sensação que experimento todos os dias, em uma fase em que quase tudo é novidade. Não falo apenas do trabalho ou da língua. O contexto é outro, as pessoas nem sempre reagem da forma como esperamos, até o humor é diferente. É uma experiência única, aprender coisas tão básicas de novo. O que tem graça aqui, às vezes não tem a menor graça aí. Uma cara franzida, ou a ausência de qualquer expressão facial, pode não significar a mesma coisa que significaria aí. O tom de voz é algo que sempre me engana. Ninguém está bravo. É assim que se fala aqui. Às vezes depois de uma voz áspera, vem um melódico “tchuuus”, tão gentil que a gente até olha para trás para ver se é a mesma pessoa quem está dando tchau.

É claro que você não pode esperar entender completamente o contexto, em tão pouco tempo. Gosto de pensar que, enquanto eu assistia o Sítio do Pica-Pau Amarelo, a moça que me atendeu na loja de móveis assistia um programa completamente diferente, quando era criança. Ela nunca teve medo da Cuca, e eu nem sei o nome do bicho de quem ela tinha medo. Se soubesse, provavelmente não conseguiria pronunciar. Temos referências diferentes, não devemos necessariamente reagir da mesma forma ou rir das mesmas piadas. Como eu sou a minoria aqui, eu é que me sinto pequenininha, quando não entendo por que ela se recusou a me falar o preço do sofá às 8:57, quando o horário de atendimento começava às 9:00. Ou quando eu não encontro o leite condensado no mercado, por que ele fica junto ao café, e não junto aos ingredientes para bolos e doces (???). Ou quando a secretária do médico não me avisa que ele não atende pelo convênio, até que eu chegue lá, no dia da consulta. Some-se a isso tudo o fato que, ao aprender uma nova língua, raramente conseguimos expressar exatamente o que gostaríamos, o que dá ainda mais margem para confusão.

A sensação de que voltamos a ser pequenos aparece também quando passamos a precisar de ajuda para aquilo que antes fazíamos sozinhos, com os pés nas costas. Todo mundo que já precisou de ajuda para tomar banho, depois de quebrar o braço ou fazer uma cirurgia, por exemplo, conhece a sensação. É um aprendizado, conseguir se livrar do orgulho e da falsa sensação de autossuficiência. Até tentei ligar sozinha para o setor de achados e perdidos da companhia de metrô (sim, sim, esqueci minha bolsa no trem, já sei preciso prestar mais atenção nas coisas). Suei mais do que se tivesse feito 30 minutos de esteira. Valeu o treino, mas tudo ficou mais fácil quando uma boa alma germânica que passava por ali resolveu me ajudar com a comunicação.

Enfim, daqui de baixo da minha pequeneza de hoje, sinto que há tanto por aprender. Às vezes dá até uma impressão de que não vai dar pé, que a piscina é muito funda para a minha estatura. Já aprendi a nadar uma vez, acho que é possível aprender a nadar por aqui também. Por enquanto, é paciência de gente grande, e mão na bordinha...









terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O dia em que neva


A neve em uma cidade agitada como Berlin é vista por muita gente como um incômodo. Fica difícil andar na rua, atravessar a rua, reconhecer onde começa a rua. O trem atrasa, o carro derrapa, a gente escorrega. Depois de tanto vai e vem, o dia inteiro, a neve vai deixando de ser branca, e vai ficando parecida com uma lama, uma lama gelada.

Falando assim, até pareço um alemão. Alemão tem fama de reclamar de tudo. Nunca vi um Alemão dizer que está ótimo. Quando muito, está tudo bem. Mas, pasme você, apesar de toda esta confusão, até os Alemães se rendem ao encanto do dia em que neva.

O dia em que neva é aquele dia em que a gente acorda, olha lá fora, e vê tudo branco, intocado. A neve ainda não causou nenhuma confusão, ela apenas caiu, enquanto a gente dormia. Diferentemente dos dias que se seguem, o dia em que neva é um dos mais calmos. Ele é silencioso, porque a neve que cobre tudo - as calçadas, as ruas, os telhados e os carros - abafa o som da cidade. Tudo fica mais quieto. As pessoas andam mais devagar, com medo de cair, tentando tatear com os pés onde é mais seguro pisar. Ninguém teve ainda tempo de limpar as calçadas. E se a neve ainda estiver caindo, aí sim a sensação de paz é completa. Isso porque, diferentemente da chuva, a neve é lenta, e cada floquinho vai descendo de vagar, dançando de um lado para outro, até pousar lentamente sobre o floquinho que caiu segundos atrás. Observando da janela, até o nosso ritmo parece que fica mais lento.

Não bastasse tudo isso, tem ainda o floco de neve em si. O menor pedacinho visível da neve tem um formato perfeitamente geométrico, como uma mini toalha de crochê, branquinha, daquelas que a minha avó Maria faz. Tamanha perfeição se desfaz em segundos, ao cair na nossa mão, e vira uma gota de água como outra qualquer.

É uma pena, mas esse dia uma hora acaba, e logo em seguida vêm os dias de caos (ou “Katrastrophe”, como falam aqui). A calma da neve branquinha dá lugar à bagunça geral que descrevi lá no começo. Ainda assim, penso que vale à pena. Afinal, que graça teria passar tanto frio se não pudéssemos ver a paisagem mudar, as crianças felizes da vida com o brinquedo novo que caiu do céu, e, acima de tudo, ter o privilégio de experimentar a sensação do dia em que neva?

Penso que é como aquelas decisões que a gente toma, cientes das consequências, nem sempre fáceis de administrar. Sabemos que virão - e de fato vêm - as dificuldades, o desconforto, e a necessidade de se equilibrar, aqui e ali, para não escorregar. Mas ainda assim topamos pagar para ver, viver o que existe para ser vivido, e aproveitar, cada um desses dias “em que neva”, seja no inverno, seja no verão.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Igual mas diferente

Acho que já houve um tempo em que era possível dizer de onde uma pessoa vem, simplesmente com base na aparência, no jeito de vestir, ou no comportamento. Hoje em dia, não é tão fácil.

Tenho percebido isso no trem e no ônibus, aqui em Berlin, onde tem gente do mundo inteiro. Enquanto não chega a minha estação, e quando não estou folhando o meu Michaelis tentando traduzir as propagandas dentro do vagão, fico observando as pessoas ao meu redor. Com base no visual tento adivinhar quem é de onde. Só dá certo se, em algum momento durante a viagem, a pessoa começar a conversar com alguém ao lado, ou, atender o celular, por exemplo. Aí, dependendo do idioma, vejo se acertei ou não. Ah, e se a pessoa puxar da bolsa um livro ou um jornal para ler, também funciona, contanto que eu esteja perto o suficiente para dar aquela esticadinha, de rabo de olho, para ver o idioma da leitura. Não é xeretar a vida alheia, longe disso. É um experimento cultural, ou intercultural, melhor dizendo.

Tem gente, às vezes, que eu juro de pé junto que é brasileira. Tem aquele olhar esperto, prestando atenção em tudo o que acontece ao redor, como quem já andou muito na praça da Sé, sabe? Sempre achei que só brasileiro tinha esse olhar. Outro dia tinha uma moça negra, alta, bonita, com esse olhar. Fiz minha aposta. Daqui a pouco ela esbarra alguém e manda um “entschuldigung”, sem sotaque algum. Errei de novo. O estereótipo do Alemão, loiro, dos olhos azuis, não ajuda mais. A moça loira e alta ao meu lado no ônibus, com toda a pinta de alemã, desandou a falar português de Portugal ao celular, sem mais nem menos. Parecia piada. Já a japonesa, de um metro e meio de altura, sentada lá perto do motorista, deu uma bronca nos dois filhos, em alto e bom alemão. Bronca em alemão é mais bronca. Morri de medo.

Acho bacana ver como, no mundo de hoje, é possível que tantas culturas convivam em um mesmo espaço. Por um lado, é interessante ver como pessoas de diferentes origens podem se passar uma pelas outras, mostrando que somos realmente todos iguais, feitos do mesmo material, capazes de aprender as mesmas coisas, a depender apenas do que nos ensinam.

E justo aqui, onde um dia um maluco decidiu que quem não era ariano não merecia viver, é gostoso ver esta mistura de cores e línguas. Só espero que cada uma das culturas resista sempre à tendência de nos homogeneizarmos demais. Neste nosso tempo em que falar inglês geralmente basta, em que todo mundo assiste os mesmos seriados de TV, e quer roupas da mesma marca, torço pela manutenção de algumas diferenças, aquelas que continuam fazendo do mundo um lugar tão interessante.

No que tange às alemãs, devo dizer, uma diferença está definitivamente preservada. Na experiência acumulada até agora, na adivinhação de quem é de onde, uma técnica não falha nunca. A despeito das lojas chiquérrimas da Friedrichstraße e da Kudam, e do bom gosto dos alemães para roupas, utensílios e decoração, uma coisa é certa: loira ou morena, alta ou baixa, olhos claros ou castanhos: se o sapato for feio e parecer masculino, a moça é alemã. É batata! Aliás, uma hora dessas precisamos falar sobre as batatas...
                    (Era uma moça, juro!)