...palavras são o que teimamos em usar para vesti-las.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O que é que a Jezebel ainda não cheirou?

Há 2 semanas fomos incumbidos de cuidar da Jezebel. Uma cachorrinha Beagle, no auge dos seus 16 anos de idade canina. Fazendo as contas, em anos de gente, passa dos 100. A dona dela precisou viajar às pressas, é estrangeira e não conhece ninguém aqui, estava desesperada. Fomos bonzinhos em perguntar sobre a cachorra. Sobrou para a gente.
Devo dizer que conhecer a Jezebel me ensinou algumas coisas muito importantes. Ela tem tudo o que gente velha tem. Uma artrose danada nos quadris, que faz com que ela escorrege toda hora quando anda no chão liso. Nao escuta absolutamente nada. Voce pode bater palma, assobiar, deixar cair panela no chao. Não adianta, ela nao vem. Às vezes nao percebe que ainda está fazendo xixi, e sai andando por aí com os pinguinhos ainda caindo. É cheia de manias. Só dorme se for em lugar alto, no sofá ou na cama, de preferência. No chão, só a soneca da tarde, e olha lá.  Ela é magrinha, tem o pêlo curtinho para não agravar o problema de pele, fica horas sentada olhando para o nada, e vai aos poucos curvando as costas, devagarzinho, ficando cada vez mais corcunda e deixando a cabeça pescar de sono, até que deita e dorme. Fui então pensando que iríamos lá na casa dela umas duas vezes por dia, só para trocar a comida e levá-la na rua uns minutinhos, até ela se cansar. E torcer, é claro, para não acontecer o pior, pelo menos até a dona dela voltar…
Mas foi só pegarmos a coleira da Jezebel no primeiro dia de visita, para perceber que, pelo menos no que depender da vontade de viver, ela ainda tem muito chão pela frente. E por falar em chão, haja calçada, canteiro, rua... A mera visão da coleira transforma aquela senhorinha cansada em um filhote cheio de energia, afoito, estabanado, puxando a gente na marra pela escada abaixo, e derrapando ao longo do caminho em cada um dos 4 andares até o térreo.   Em questão de segundos acontece a transformação. É só ver a coleira, e ela dá um pulo acompanhado daquela arrebitadinha típica da traseira (com uma abaixadinha típica da dianteira), olhando para a gente com aquela cara de “vamos logo, o que você está esperando?”. Uma vez na rua, lá vai ela cheirando tudo freneticamente, cada poste, cada porta, cada moita, com o mesmo interesse de um cachorro novinho que sai para passear pela primeira vez. O rabinho antes baixo e sem vida, aponta imediatamente  para cima, e bate de um lado ao outro sem parar, assim que aparece outro cachorro na mesma calçada.
Fiquei pensando em como pode a Jezebel, tao vivida, ainda se empolgar com essas coisas tão simples: coleira, canteiro, calçada. Esquecer das dores e ganhar vida nova todos os dias, na hora do passeio.  Quantos postes e quantas traseiras de outros cachorros ela já não deve ter cheirado nesta vida? Se ela fosse gente, talvez a sua alegria fosse o  dia de ir ao bingo, ou de viajar com as amigas para Águas de Lindóia. Vale também. Vale o que faz você, eu e a Jezebel voltarmos a ser crianca, nem que seja por alguns instantes. E se acontecer da gente ficar triste ou desanimado de vez em quando, que seja só até o próximo poste.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Uma capa. Dois homens.

Depois de um bom tempo sem escrever, sobre o que não vou me justificar agora - e nem depois –, hoje me deparei com uma situação que pede, ou melhor, exige um texto. Deixar esta passar batido seria como achar aquele chocolate amargo suíço que a gente adora, na promoção de 3 por 1, e não pegar pelo menos um pacotinho. Ou como ver que está passando o seu filme preferido na sessão da tarde, e não assistir pelo menos até o próximo intervalo.

Em 1982 um engenheiro brasileiro de trinta e poucos anos, que fazia um cursinho picareta de inglês duas vezes por semana, foi chamado para trabalhar em Michigan, EUA. Teve que se virar por lá, aprender tudo rapidinho no trabalho, se dar conta de que o seu inglês ainda não dava conta do recado, cuidar da mulher e de dois filhos que carregou na mala. Um ano de perrengue, aprendizado, mas principalmente, de encanto. Encanto com tudo o que era diferente, com os produtos diferentes no supermercado, com o fato de ser chamado só pelo sobrenome, com a neve, com o comportamento esquisito dos vizinhos, com tudo. Foi este o mesmo ano em que uma capa de cor caqui, à la detetive, teve um destino muito diferente dos demais casacos que aguardavam pendurados na mesma arara, por um comprador que os levasse para casa. A sortuda prestou serviços durante apenas um inverno. Nada mais. Nunca mais haveria para ela, nos trópicos, o dever de aquecer alguém. Ficou guardadinha, na vida mansa, protegida e bem cuidada, durante, pasme, 30 anos. Nenhuma mancha, nem mesmo sequer um botão solto ou  um fio puxado. O homem que a capa aqueceu, em 1982, foi o meu pai.

Mas o que ninguém tinha percebido, é que a capa era encantada. Passado este longo período de hibernação, um fenômeno incrível se manifestou. Do fundo do armário,  o encanto encontrou uma brecha - que até então nem as traças tinham achado – passou por entre as dobras do embrulho que protegia a roupa, e fez com que alguém, que passava ali pelo quarto naquele momento, subitamente se lembrasse do item aposentado.  Sem mais nem menos, a capa foi mandada para a tinturaria, lavada, passada, e colocada de volta na ativa. Desta vez, enviada para uma nova missão, em outro país gelado.

Hoje à noite nevou aqui em Berlin. Uma noite de quinta-feira geladinha, perfeita para um programinha cultural a dois. Combinamos de ir à ópera depois do trabalho, nos encontraríamos na saída do metrô. Foi quando vi chegando um moço alinhado, coberto por aquele tecido caqui. Exatamente como primeiro proprietário da capa, ele tem hoje seus trinta e tantos anos, aprende uma nova língua, enfrenta e se encanta com as diferenças de um novo país, e cuida de mim. A mesma capa, com um intervalo de 30 anos, aquecendo os dois homens da minha vida. Vai dizer que a vida, em si, não é cheia de encantos? 

 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

No centro

Como diz o Tavares, meu querido amigo, tem momentos em que a gente está “no centro”. A  versão completa da expressão é “no centro de fortes emoções”,  e se aplica ao dia antes do vestibular, aos últimos minutos antes da largada, ou à espera pela notícia do médico ao fim da cirurgia. Existem várias categorias de situações que colocam a gente “no centro”. As que eu andei passando, nas últimas semanas, não são, definitivamente, das mais graves. Muito pelo contrário, existem na vida circunstâncias muitíssimo mais sérias do que qualquer coisa relacionada a trabalho. Mas seja como for, estar “no centro” é estar “no centro”, e a gente passa apertado de qualquer jeito.

Já me disseram que somos avaliados todos os dias, em tudo o que fazemos, sem percebermos. E isso é bem verdade. Mas quando você sabe que o chefe do seu chefe está ali só para observar a sua reação, numa simulação cuidadosamente elaborada para lhe deixar sem saber o que fazer, aí não tem como estar em outro lugar que não “no centro”.  Ou quando colocam a gente para falar durante 3 horas, sobre um assunto que a gente acabou de aprender, para um bando de gente que é formada no tema. Aí também não tem expressão que melhor se encaixe.

Mas o que achei interessante, sobre estas recentes experiências apavorantes, foi parar para pensar que outras coisas, antes também assustadoras, um dia simplesmente deixaram de ser. Meu pai teve a feliz idéia de me enviar um e-mail, na noite anterior a um desses hecatombes psicológicos, com uma foto da competição de natação em que eu nadei na honrosa categoria “sapinho”. Não me lembro da sensação, pois tinha só quatro anos, mas aposto que naquele dia o nervoso era proporcionalmente o mesmo, considerando a minha nanica estatura na época. O que o meu pai quis me dizer, e o que eu acho que entendi, é que os desafios crescem junto com a gente, e que se um dia a gente foi capaz de nadar bem o “sapinho”, por que hoje não seríamos capazes de encarar um ou outro leão por aí? Então foi só começar a pensar sobre o que veio depois da competição de natação, e ir achando outros pequenos grandes desafios, que foram crescendo, crescendo e culminaram, agora, com essa reunião (de mentirinha) onde eu tive que falar para o chefe (de verdade) que ele estava completamente errado e que por favor deixasse eu acabar de falar antes de emitir a sua opinião. É bastante suor para uma testa só...

Mas acho que perceber este fato foi muito mais importante do que o resultado de qualquer desses recentes apertos em si. Talvez assim seja possível enxergar os próximos de um jeito diferente, ou pelo menos tentar continuar crescendo (ainda que não em estatura), para acompanhar o passo dos desafios que de tempos em tempos teimam em colocar a gente “no centro”.    

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

1, 2, 3 Pim

Meu celular tocou, uma vozinha aguda começou a falar sem parar, repetindo ininterruptamente as palavras que depois de uns 2 ou 3 minutos eu consegui conectar uma a outra, e finalmente entender a mensagem:  ela estava perdida, parada na frente do metrô, e queria que eu fosse busca-la lá. Era a Pim, a senhora tailandesa que veio aqui em casa para dar um jeito na minha coluna, que um dia desses resolveu travar e me deixar com a silhueta do corcunda de Notre  Damme.

A Pim mora na Alemanha há 26 anos, e até hoje, se comunica aos trancos e barrancos, com o seu engraçado “Tailemão”. Uma senhorinha simples, baixinha, que ri e fala sem parar, como se a gente estivesse entendendo tudo. Ela se perdeu porque não entendeu a numeração dos prédios aqui na rua. Morre de medo de elevador, e me fez prometer que desceria com ela na hora de ir embora. Mas que ninguém se deixe enganar por aquela aparência inofensiva, que inspira quase compaixão. Não sei de onde aquelas mãozinhas tiram tanta força. Onde mais doí, é onde ela mais aperta. Sem dó nem piedade. Bastou uma sessão para aprender que se doer muito, o negócio é não dizer nada. Se reclamar, é aí que ela se empenha ainda mais, e adquire quase que superpoderes. Um trator, um rolo compressor, ou, no caso, um tsunami, como preferir.

No dia seguinte, acordei como se tivesse dormido dentro da máquina de lavar roupa, no modo centrifugar. Doía absolutamente tudo, muito mais do que antes dela passar por aqui.  Mas conforme os dias foram passando, percebi que os músculos estavam doloridos, mas tinham de fato voltado para o lugar. Afinal, ela sabia o que estava fazendo.

Mas o que me impressionou mais sobre a Pim, não foi a sua técnica terapêutica. Conforme íamos tentando nos entender, com o nosso alemão igualmente sofrível, ela me falou uma das coisas mais simples, e, ao mesmo tempo, mais sábias que eu já ouvi. Ela me disse que com todas as dificuldades que já enfrentou na vida, se considera realmente feliz, pois sabe que faz bem para as pessoas. Acho que ela poderia até ter dito isso em Tailandês, e eu iria entender. A expressão no seu rosto era como uma legenda, numa língua universal. E existe de fato maior felicidade, do que ter esta sensação diariamente, com o trabalho que se escolhe para ganhar a vida? Imagino que seja algo como aquela alegria que a gente sente ao dar um presente, daqueles muito bem escolhidos, para quem a gente gosta, só que multiplicada por 8 horas por dia, 5 vezes por semana. Fazer bem para os outros, como profissão. Caramba, quanta sabedoria escondida atrás de uma figura tão simples. Feliz da vida, lá foi a Pim embora, mas só depois, é claro, que eu desci com ela no elevador.  


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Trezentos e sessenta e cinco

Um ano é bastante coisa. Se pensarmos em quantas vezes saímos de casa de manhã para o trabalho, quantas vezes esperamos o ônibus chegar, o semáforo abrir, a água ferver. Quantas vezes fomos ao mercado, fizemos o jantar, recebemos visita, arrumamos a bagunça, bagunçamos tudo de novo...  E se imaginarmos tudo isso como um filme acelerado, em que as pessoas parecem formiguinhas rápidas correndo de lá para cá, aí é que a gente tem uma idéia de quanta coisa cabe em um ano.

Quando fomos buscar os meus pais no aeroporto, no início do mês, me dei conta de que há um ano não via o rosto deles. Nos falamos praticamente todos os dias, é fato. Até com maior frequência do que quando, ao invés de um Atlântico, havia apenas a Avenida dos Bandeirantes e um trechinho da Marginal Pinheiros entre nós. Mas ver, ver mesmo, foram quase os trezentos e sessenta e cinco completos.  Aquela imagem  “vai-não-vai” do Skype não serve para nada. Aliás, acho que até atrapalha. É como um diálogo sem ritmo, daqueles filmes mal dublados.

 Mas o curioso é que, assim que os encontrei no portão do desembarque, logo me assombrei com o fato de que parecia que os tinha visto no dia anterior.  Não senti qualquer distância, qualquer tempo perdido, qualquer estranhamento. Acho que quando a gente ama muito alguém,  tem algo que garante a proximidade, a despeito de estarmos sentados lado a lado no sofá da sala, ou a milhares de quilómetros de distância.  O fato de termos nos mantido rigorosamente a par do que acontecia nas nossas respectivas vidas, e de nos conhecermos tão bem a ponto de sabermos se o dia foi bom ou não, pelo tom da voz ao telefone, parece quase ter suprido a necessidade da proximidade física. É como se esses “laços de família”, como se diz por aí, fossem de fato estreitos, mas ao mesmo tempo incrivelmente elásticos e compridos.
Não há nada como um abraço bem apertado, é bem verdade. Eu mesma daria tudo para receber um ou dois daqueles do portão de desembarque, todos os dias, para começar bem a manhã ou ao voltar para casa, depois de um dia difícil no trabalho!  Mas o que eu posso dizer, agora por experiência própria, é que há muito, mas muito mais do que o contato físico de um bom abraço, nos relacionamentos humanos sinceros. E não pode haver amor mais sincero do que aquele de pais capazes de renunciar a proximidade física, o convívio, para permitir que busquemos o que procuramos, onde quer que seja.  Para esse tipo de amor, um ano é fichinha.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Filarmônica com ovo

Na segunda tentativa, conseguimos assistir ao concerto ao ar livre da Orquestra Filarmônica de Berlin. Ele acontece todos os anos, no verao, em uma arena construída no meio da mata, quase nos limites da cidade. Vimos este concerto uma vez na televisão no Brasil, em um canal a cabo, e ficamos encantados com o lugar e com a música. Assim que soube da data do concerto deste ano, corri comprar os ingressos, e esperamos quase dois meses pela grande noite, que ao invés de grande, foi molhada. Chovia tão forte, que os músicos não tiveram coragem de arriscar estragar seus instrumentos com a água que o vento soprava para dentro do palco, ainda que coberto. Concerto cancelado, voltamos para casa ensopados, e frustrados.
O concerto foi transferido de julho para agosto, e finalmente aconteceu nesta última terça-feira. Desta vez uma noite sem chuva, com uma brisa morna, ideal para qualquer atividade ao ar livre. E lá estava mais uma vez aquela multidão, de 20 mil pessoas, que, como nós, havia aguardado com resignação a nova tentativa.
Sim, 20 mil pessoas. E é sobre elas que eu preciso falar. Nunca pensei que uma quantidade tão imensa de gente, reunida ao ar livre, fosse capaz de produzir aquele silêncio absoluto. No momento em que o maestro pegou a batuta e se virou para a orquestra, não se ouvia absolutamente nada, a não ser um ou outro passarinho mais desavisado, ali daquela mata, que não se deu conta que era dia de visita, e das importantes. Um respeito impressionante. Mesmo onde estávamos sentados, em um dos setores mais distantes do palco, ninguém abria o bico, como se estivéssemos todos dentro de uma pequeníssima sala de concertos, em uma apresentação para uma seleta platéia.
A música foi excelente, o cenário, de tirar o fôlego. Mas preciso confessar que passei grande parte do tempo olhando ao meu redor, e não em direção ao palco. Não pude deixar de reparar nos pequenos detalhes, que mostram claramente a capacidade que os alemães têm, de harmonizar tão bem o erudito com o popular, o simples, o essencial. Não havia sequer um expectador sem uma mochila ou cestinha a tiracolo, com uma merendinha para comer ali, durante o concerto. Não pense você que me refiro a um vinhozinho com queijo, para combinar com o requintado evento. Não, longe disso. Um mar de "tupperwares" coloridos, com tudo o que você possa imaginar, de linguiça defumada a ovo cozido, passando por tirinhas de pepino e batata assada. Sim, uma farofa daquelas, das boas (obviamente sem a farofa em espécie, artigo desconhecido por aqui). O ponto é que a autenticidade do alemão não deixa espaço para falso recato. Nunca ouvi aqui o equivalente da expressão "será que nao vai pegar mal?". Se o cidadão come banana em casa, porque é que não pode descascar a sua fruta tropical ali, enquanto escuta a Filarmônica de Berlin? Nada mais autêntico, para provar que cultura nao é sinônimo de frescura, nem de aparência de status.
A disposicão dos alemães é outra coisa que não posso deixar de notar. E ela estava absolutamente evidente ali, naquela amostra gigante de pessoas: idosos aos montes (sozinhos, em grupos ou casais), famílias completas, gente jovem que acabara de sair do trabalho: todo mundo chegando de transporte público, a despeito da idade ou da classe social. Nada de manobrista, flanelinha ou "vallet". As pessoas iam chegando, uma a uma, com as suas almofadinhas, de espuma ou infláveis, em baixo do braço, já cientes dos "confortáveis" bancos de madeira que as esperavam lá (aliás, boa lição para nós novatos, para o próximo ano).

Vinte mil pessoas, cada uma com um perfil, uma história própria, e uma comida diferente no seu "tupperware". Uma multidão tão heterogênia, subitamente capaz de adotar um comportamento ordenado, harmônico e respeitoso, digno da boa música e da beleza daquele lugar. E se tiver um salzinho, por que não um bom ovinho cozido para acompanhar?




quinta-feira, 21 de julho de 2011

Conservar a qualquer temperatura

Sempre sonhei em um dia ver um campo de girassóis. O girassol é a minha flor preferida. Acho uma flor de presença, parruda, pesada, e ao mesmo tempo, tão delicada, tão alegre, tão amarela. Não tem como olhar para um girassol e ficar triste. Acho que é por isso que não se usa girassóis quando morre alguém.  Mas também não se usa em casamentos. Vai ver que é porque acham uma flor pouco nobre, comum, afinal, o girassol que não vai para a floricultura, acaba virando comida de papagaio ou óleo para fritar pastel.

O fato é que o girassol sempre me encantou, e sempre foi a flor que ganhei nos aniversários de namoro, casamento... No começo era uma haste para cada ano, até que o buquê começou a ficar muito pesado, não só para o bolso, mas também para o braço (afinal, é uma flor de presença, parruda, pesada).

Muitas vezes vi aquelas fotos de revistas de viagem, com os campos de girassóis na toscana, no sul da frança, e até no Rio Grande do Sul... Nas viagens que fizemos por aí, nunca calhou a época, o lugar, a florada... Um dia pendurei uma dessas fotos na porta da minha geladeira, e, como tudo o que penduramos na geladeira, ficou lá por anos e anos, puxando de vez em quando o canto dos nossos olhos, entre uma abridinha para pegar um tomate ou o litro de leite. Não sei onde foi parar essa foto na nossa mudança. Tenho a impressão de que ela ficou lá, grudada na geladeira, que agora já está na casa de outra pessoa. Espero que ela também passe os olhos pelos girassóis da foto de tempos em tempos, e fique imaginando, como eu, como seria andar no meio deles um dia.


Pois foi na semana passada que a figura deixou de ser uma foto na geladeira, e passou a ser uma memória com muitas outras dimensões, na minha cabeça. Em 40 minutos de carro, saindo aqui de Berlin, chegamos ao ponto que indicava a narradora sisuda do nosso GPS (que agora só fala Alemao). Achamos umas coordenadas depois de uma pesquisa na internet, onde vimos fotos dos campos plantados aqui na região no ano passado. Escrevi um e-mail para o fotógrafo, e ele me respondeu que os campos mudam de lugar de ano para ano, e que era difícil dizer. Puxa vida, é verão, estamos na Europa, tem que ter um pelo menos um canteirinho em algum lugar aqui por perto. E tinha!

Nunca vi coisa tão linda. Foi mais do que apenas a imagem. Foi me dar conta que elas têm quase a minha altura, foi ouvir o barulho das abelhas que voavam para todos os lados, bêbadas com aquela abundância de pólem e o perfume que exalava daqueles miolões amarelos. Foi o calor do dia. O contraste do amarelo com o azul do céu. O sol forte, que não deixava aqueles bolachões amarelos olharem para o outro lado, hipnotizados que estavam pela luz, como a plateia de um bom show. Hipnotisada fiquei eu também, com a oportunidade de contemplar este capricho, aquelas incontáveis hastes, com as quais seria possível presentear alguém por milhares, milhões de anos de namoro. Taí uma lembrança que vai durar para sempre. Não precisa nem conservar na geladeira.