...palavras são o que teimamos em usar para vesti-las.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Allein in Berlin

Sozinha em Berlin há cinco dias, comecei a ouvir os batimentos do meu próprio coração, na hora de dormir. Que coisa mais esquisita, nunca os tinha ouvido antes, assim, sem estetoscópio nem nada. Talvez seja por que o quarto do hotel é super silencioso, a vizinhança tranqüila. Pode ser. Mas tenho outra teoria. Quando a gente não entende o que está sendo dito ao nosso redor, por muito tempo, passamos a prestar mais atenção aos nossos próprios pensamentos, sentimentos, e talvez até ao nosso coração. Ficamos mais introspectivos que o usual.

Ontem, por exemplo, na estação de trem, me solidarizei com uma pomba. Alemã, imagino, mas igualzinha às pombas da praça da Sé. Ela deve ter entrado por uma das janelas e foi indo adiante, adiante, até que entrou em uma área toda cercada de vidro e não sabia mais o caminho da saída. Como eu, ela estava ali, andando de um lado para o outro, no meio daquele monte de gente, sem saber direito para onde ir, e sem muita coragem para perguntar para alguém. Tenho certeza de que, como eu, que acabei achando a plataforma do meu trem, ela também deve ter achado a saída, depois de algumas tentativas. O fato é que normalmente eu sequer teria reparado na pomba. Se estivesse entendendo todas as placas e a conversa das pessoas ao lado, acho que teria passado direto por ela.
Não falar a língua local traz algumas vantagens, ao menos para mim que geralmente sou avessa a experimentar comidas exóticas, por exemplo. Gostei da foto de um prato de macarrão oriental na porta do restaurante, entrei e pedi pelo número do cardápio. Não tinha erro, afinal, yakissoba é tudo igual, e os números eu aprendi já na primeira aula. Alles gut! Mas nem sempre as coisas são tão simples assim... Foi pedir o prato e logo veio a pergunta, na lata: com o molho X ou Y? Se você já passou por uma dessas situações constrangedoras, sabe muito bem que nesta hora, o que a gente mais quer é abreviar aquele momento de tensão, com gente esperando na fila, e o atendente com cara de poucos amigos. Além do que, de que adiantaria perguntar a composição dos molhos? A explicação viria no mesmo bom Alemão do viatnamita do balcão, com aquele super bom humor de final de expediente.


Escolhi o molho aleatoriamente, como muitas outras escolhas que tenho tido que fazer por aqui. Era dia de molho “supresa”, pronto. Devo confessar que dessa vez deu errado, o molho era horrível. Onde já se viu colocar abacaxi no macarrão? Paciência. Paguei em Euros, estou com fome, desperdício é pecado. Comi tudo. Quem sabe da próxima vez?

domingo, 1 de agosto de 2010

Planos, tropeços e malas

Uma vez ouvi alguém dizer uma coisa que me marcou muito: “Quer fazer Deus rir, mas rir de verdade? Conte a ele os seus planos”. É fato. Podemos até traçá-los e nos esforçarmos para que eles aconteçam, mas a última palavra nunca é nossa. O problema é que temos a mania de nos apegar aos nossos planos de tal forma que, a certa altura, acreditamos sinceramente que eles se cumprirão.

Precisamente há um ano, por exemplo, imaginava que 2010 seria um ano de transformações importantes na minha vida. Em parte, parece que eu estava certa. Mas as transformações que eu ingenuamente imaginava eram completamente diferentes daquelas que efetivamente estão por vir.

Enquanto a fila da adoção seguia o seu passo lento (por lento entenda-se mais de 1 ano sem notícias) resolvemos, sem maiores pretensões, dar uma chance à ciência, embora sempre soubemos das baixíssimas chances de sucesso de uma fertilização no nosso caso. Injeções auto-aplicadas todos os dias, a espera do dia ideal para a punção, inúmeros ultrassons, uma montanha russa hormonal, sem falar na tensão de uma sala de espera cheia de mulheres igualmente descompensadas pelo stress do processo, e seus pobres maridos aflitos. Basta para acabar com a serenidade de qualquer um.

A nossa esperança de sucesso, que no começo era tão pequena quanto o conteúdo inerte daqueles tubinhos congelados, em poucos dias se tornou uma explosão de euforia, ao vermos a milagrosa formação da vida, bem ali na nossa frente, através da lente de um microscópio, na forma de 4 embriões saudáveis. Sim, eles queriam existir. Estavam ali para provar que milagres acontecem. Nos sentíamos abençoados. Choramos juntos de alegria. E, pouco tempo depois, novamente de tristeza. Por duas vezes, a implantação não aconteceu, sem maiores explicações. Talvez eles não quisessem, na verdade, existir. Talvez quisessem, mas não conseguiram. Talvez, talvez, talvez. Talvez o plano não era bem esse.

Se Deus sussurra aos nossos ouvidos nos momentos de alegria, e grita alto nos momentos de dor, devo confessar que por algum tempo depois, mantive meus ouvidos bem tampados, de propósito. Devem ter sido os benditos hormônios. Logo passou. Logo voltei a querer ouvi-lo. Logo voltei a querer saber qual era o plano afinal.

Como sempre, os tropeços machucam, mas nos levam a prestar mais atenção no caminho. Voltamos à fila, à nossa espera, e nela conhecemos outras realidades, de pequenas grandes pessoas que também enfrentam longas esperas, como você já leu nos posts anteriores (assim espero!). E por falar em espera, quando menos esperávamos, a vida trocou o destino das passagens que segurávamos tão firmes em nossas mãos. Ao que tudo indica, ainda não será desta vez que aterrisaremos na vida de pais.

Em lugar de fraldas e berços, um ano depois do relatado, estamos às voltas com vistos e malas de viagem. A vida está nos enviando para trabalhar e estudar na Alemanha. Alemanha? Não é nem de longe o que eu tinha nos meus planos imediatos. Mas quem é que disse que eles contam? Vamos até lá. Vamos ver o que é que a vida quer nos mostrar...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Nascida para o que, mesmo?

Um dia desses vi na televisão a Susan Boyle, aquela senhorinha esquisita que virou um hit depois de participar de em um concurso de cantores na Inglaterra. Não sei cantar, e nunca quis ser cantora, mas preciso confessar que fiquei com uma inveja danada da D. Susan, não pelo sucesso repentino, mas por causa de uma declaração que ela fez no programa da Oprah Winfrey (sim, eu assisto). A senhorinha disse, com uma certeza desconcertante, que sabe exatamente para o que veio ao mundo, e que não tem a menor dúvida que hoje faz precisamente o que nasceu para fazer.

Imagine ter a segurança, a todo tempo, que não há nada, neste mundo, que você poderia fazer melhor do que o que você já faz. Caramba! Estatisticamente, as chances são bem pequenas, afinal de contas, existe um mundo de possibilidades lá fora, um monte de coisas diferentes para se fazer, e, em geral, somos expostos a um ínfimo número delas. Simplesmente escolhemos uma, e torcemos para que dê certo.

Por exemplo: se o indivíduo cisma que quer ser médico, vai passar pelo menos uns dez anos se preparando para isto. E se, chegando lá, digamos, uns dois anos depois da residência, algum fato da vida vier a lhe revelar que, na verdade, ele nasceu para ser astronauta? Já era. Dificilmente haverá tempo para mudar a rota e investir naquilo que ele efetivamente deveria estar fazendo. Afinal de contas, astronautas, atletas, físicos e grandes pintores, assim como um monte de outros profissionais, a exemplo dos médicos, precisam começar cedo.

Talvez seja só eu, e você não esteja vendo sentido algum no que estou tentando dizer. De fato, normalmente não percebo nas pessoas essa mesma ansiedade, e provavelmente elas estão certas. Cada um faz aquilo que a vida lhe oferece, e tenta fazer da melhor forma possível. Acertar na mosca (a mosca sendo a atividade que melhor aproveita os seus talentos inatos) é privilégio para poucos, ainda mais se for de primeira. Na verdade, sejamos realistas: a maioria das pessoas sequer pode se dar ao luxo de escolher o que fazer para ganhar a vida.

Eu tive a chance de escolher minha profissão, não só uma, mas duas vezes. Sou muito grata por isso, especialmente por que na segunda escolha encontrei uma forma muitíssimo mais eficiente para usar o que acredito serem os meus talentos. Ainda assim, confesso que às vezes me pego pensando se um dia poderei afirmar, com o mesmo grau de firmeza e segurança, o que disse a D. Susan, que sabe que nasceu para cantar. Vai ver que no meu caso... eu nasci foi para conjecturar.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O danoninho nosso de cada dia

Já reparou como gastamos boa parte do nosso tempo pensando em coisas que sequer existem? O amanhã é um bom exemplo. Olhe aí para o seu relógio. Até a meia noite de hoje, o amanhã simplesmente não existe. Não se trata de discutir se ele existirá ou não, com aquela velha conversa de que “basta atravessar a rua...”. Nada disso. A questão se limita aos fatos. Neste momento, ele não existe. Ponto final.

Então, por que será que nos dedicamos tanto a imaginar como ele será? E pior, quando o amanhã finalmente chega, lá estamos nós pensando no dia seguinte, e seguinte, numa interminável especulação sobre o que vem por aí. Parece um mal bastante comum, tanto é que garante o sustento de um bando de profissionais, de economistas a meteorologistas, para não falar nos praticantes de modalidades menos respeitadas de adivinhação. Mas parece que nem sempre fomos assim, ao menos, não quando éramos crianças.

Neste último feriado, o Léo – aquele mesmo, o do leão – voltou à nossa casa. Do dia em que ele chegou, até o dia em que o levamos embora, eu só conseguia pensar em como será a vidinha dele, dependendo do que o juiz vai decidir (quando V. Excelência decidir decidir, é claro).

Será que o Léo um dia vai se formar na faculdade, ou vai largar a escola cedo? Será que ele vai se lembrar que é feio pegar sem pedir emprestado, ou vai se render aos conselhos das más-companhias? Será que ele vai esquecer a sensação de abandono que experimenta desde tão pequenininho, ou vai transformá-la em revolta, em algum ponto do caminho?

Já ele... quanta preocupação! Se deliciou com a água gelada no rasinho da praia, comeu tantos danoninhos quanto pôde, assistiu mais uma vez o seu filme preferido na televisão, dormiu no nosso colo no sofá, fez birra para ir para a cama. Viveu aqueles 4 dias intensamente, sem pensar no domingo que estava chegando. Sem pensar nos meses e anos incertos que estão por vir. Sábia decisão: afinal de contas, o que pode ele em relação ao seu futuro, do alto do seu 1 metro de estatura?


Tentei ensinar o Léo a amarrar o cadarço do próprio tênis. Ele me olhou fixamente, com a testa bem franzida, e as palmas das duas mãozinhas viradas para cima, em sinal de completa indignação:

“Mas, tia, eu só tenho 4 anos!”  

Boa Léo! Às vezes falta a nós, adultos, reconhecermos a nossa pequeneza e impotência diante dos fatos da vida. Quer saber? Façamos a nossa parte hoje, e que venha o amanhã, como tiver de ser. Eu vou é imitar o menino, e comer meu danoninho sossegada, um dia de cada vez.

sábado, 29 de maio de 2010

Atletas da vida

Há algum tempo decidi pular da cama mais cedo e ir nadar às seis da manhã, antes do trabalho. O congestionamento infernal depois das sete e meia tem sido um grande estímulo para abrir mão de uma hora de sono, em troca de um começo de dia sem stress. Atualmente, a CET só ajuda quem cedo madruga, e olha lá. Mas não tem sido esse o único benefício do novo hábito.

Logo nos primeiros dias me surpreendi com a freqüência da academia nesse horário. Justamente quem não tem mais compromissos, e tem o dia todo para ir onde quiser, faz questão de aparecer por lá logo no primeiro horário, como eu.

Aos poucos, elas vão chegando, uma a uma, carregando suas malinhas, maiôs e toucas, prontas para a hidroginástica, que, tenho certeza, não passa de um pretexto para aquele encontro animado no vestiário, todas as manhãs.


É a turma da terceira idade. Um bando barulhento de senhoras, no auge dos seus setenta e poucos anos, com muito mais assunto do que qualquer turma de adolescentes no vestiário da escola. Cabelos de todos os tons, do vermelho vivo, daquelas mais extrovertidas, ao branquinho elegante daquelas que exibem com orgulho a prova da sua vivência.

Ali, não trocam apenas de roupa. Trocam dicas sobre os passeios da semana, relatos sobre filhos, netos e noras, convites, receitas, vivências. Riem de si mesmas , queixam do joelho que dói, mas logo ajeitam a alça dos maiôs uma das outras e vão para a piscina, ainda tagarelando: “você paga para mim o passeio para Poços, eu te dou na semana que vem?”

É um burburinho gostoso de ouvir... Ajuda a lembrar que a velocidade da vida um dia diminui, e que a pressa para secar o cabelo correndo para chegar ao trabalho um vai dar lugar a uma pressa diferente. Afinal de contas, elas ainda correm. Correm atrás do tempo que passaram dentro de casa cuidando de filhos e dos maridos, ou trabalhando atrás de um caixa de banco, como algumas já comentaram. Correm para aproveitar o dia, como a D. Francina ajeitando com destreza a prótese de mama sob o maiô, enquanto me conta como venceu a doença, há mais de 20 anos. Já sabem o que importa na vida. Já não perdem tempo com o que não importa.


Mais de uma vez, ali no vestiário, ouvi de algumas dessas atletas: “Ah, minha filha, foi o tempo em que eu tinha esse corpinho...”. Minha resposta é sempre a mesma. “E está para vir o tempo em que eu vou saber tudo o que a senhora já sabe, é ou não é?”. Elas riem, mas sempre concordam.

sábado, 24 de abril de 2010

Minha dupla

É no dia-a-dia que conhecemos quem vive com a gente. Um pouquinho a cada dia. É por isso que eu acho que o tal amor à primeira vista não existe. Impossível. Seria uma inversão da ordem natural das coisas: amar, para depois conhecer? Não acho que funciona assim. Amamos ou deixamos de amar, na medida em que conhecemos.

É no dia-a-dia que vamos percebendo as qualidades e os defeitos, as reações e as omissões, aquilo que nos causa admiração e aquilo que preferiríamos não ver. De posse dessas informações, vamos lentamente consolidando - ou desfazendo - o desejo de ficar juntos, de viver em dupla.

Mas é naqueles dias menos comuns, aqueles das situações inusitadas, difíceis ou mais críticas, que este conhecimento vem em doses maiores, e pode nos surpreender, mesmo após alguns anos de convívio. Assim tenho ouvido falar, e experimentado.

Recentemente, no meio das nossas férias, inventei de interromper o passeio por 1 dia para comparecer a um compromisso de trabalho em outro país, um lugar que não conheço e cuja língua eu não falo. Talvez eu pudesse até ter ido sozinha, e voltado com uma sensação de auto-suficiência que só as mulheres modernas podem experimentar.

Mas tenho certeza que essa sensação não seria melhor do que aquela que eu senti, tendo sido amparada pela minha dupla, durante a aventura. Começando por um absoluto desprendimento em relação ao fato de que o compromisso de trabalho era meu, e não dele, passando pela disposição em me acompanhar, e pela assunção de toda a responsabilidade para garantir que eu chegaria no lugar certo, na hora certa, e faria bonito na reunião. Da compra dos bilhetes de trem na tal língua, à limpeza da manga do meu casaco - que eu desastradamente sujei de molho minutos antes do compromisso -, passando pelo grande encorajamento para encarar aquele dia que, para mim, era um desafio. Acima de tudo, uma postura que me surpreendeu, a despeito dos vários anos de “conhecimento”.

Se é que ainda existe por aí alguma feminista de plantão, daquelas que dispensa com orgulho o cuidado masculino, que me perdoe. O feminismo nos fez enxergar com naturalidade que determinados papéis, antes só exercidos pelos homens, podem também ser exercidos por nós, mulheres, e vice-versa. Até aí, tudo bem. Mas é importante lembrar que alguns desses papéis estão tão gravados na nossa essência que, quando nos rendemos a eles, e admitimos nossas fragilidades, nada de terrível acontece. Pelo contrário, nos sentimos bem, nos sentimos mulheres, e ainda criamos a oportunidade para conhecer um pouco mais quem está ao nosso lado. Foi justamente em uma dessas oportunidades que passei a admirar ainda mais a minha dupla.

sábado, 6 de março de 2010

Terceirização em casa

Se a expressão “cargo de confiança” fosse associada a uma imagem, ela teria de ser, na minha opinião, a de uma mocinha tímida, de 18 anos, vestida com um uniforme branco. Cada vez mais, meninas com este perfil são vistas nos play-grounds dos condomínios de classe média, shoppings e festinhas infantis, correndo atrás de seus pequenos patrões. Embora tão jovens e inexperientes, são merecedoras da confiança de casais ocupados demais durante a semana, e cansados demais no final de semana, para cuidar da sua prole.

Para quem cresceu com a mãe em casa, em tempo integral, é um bocado difícil entender como é possível delegar poderes para cuidar de um bem tão precioso. O fato é que, abrir mão dessa ajuda significaria se render à inexorável verdade de que a vida com filhos simplesmente não pode ser a mesma. No entanto, vivemos em um tempo em que da mulher se exige que continue fazendo tudo o que fazia antes de se tornar mãe, do trabalho à ginástica. Como o dia continua tendo as mesmas parcas 24 horas, alguma das tarefas têm que ser sacrificadas, não há outro jeito. E é aí que entram as moças do uniforme branco.

Não se trata aqui de uma crítica ao fato em si, mesmo por que, não sou capaz de pensar em uma solução melhor. O que me intriga é como alguns parâmetros são relativizados, quando nos vemos sem opção. Embora hoje em dia ninguém contrate sequer um estagiário que não fale inglês, quando se trata da pessoa que passará 8 horas cuidando do seu filho em idade pré-escolar, uma mocinha recém-chegada do interior do nordeste, com pouca ou nenhuma desenvoltura ou habilidade de comunicação, é um verdadeiro achado.


Se a prática não pode ser criticada, muito menos podem as tais meninas. Geralmente privadas de instrução formal, tão jovens já se amarram às longas jornadas do cargo, por si só incompatíveis com o desejo de voltar para a escola. Embora estejam expostas a ambientes e pessoas com nível de educação muito superior ao seu, e que, em tese, poderiam contribuir para o seu desenvolvimento, raramente alguém, que não as próprias crianças, se dirige a elas, que passam despercebidas em seus uniformes brancos.


Alguns pais não conseguem abrir mão deste conforto nem mesmo nos momentos de lazer, e carregam essas mães terceirizadas a tiracolo, nos finais de semana. Quem nunca se sentiu constrangido ao ver um casal almoçando tranquilamente em um restaurante sofisticado, enquanto a mocinha do uniforme branco, também à mesa e sem comer, se equilibra na pontinha da cadeira tentando fazer o menino comer umas batatinhas?


O preço pago por esta comodidade toda pode ser um pouco mais alto do que o salário que essas moças recebem no final do mês. Ouvi outro dia a história de uma criança que, ao cair no chão, numa festinha infantil, abriu a boca a chorar e correu desconsolada em busca de colo. A mãe, que logo se abaixou, de braços abertos em sinal de acolhimento, só teve tempo de ver o menino passar direto por ela, e se jogar aos prantos nos braços da moça do uniforme. Está aí uma tercerização cujo custo pode ser alto demais.